Não existe amor na Pós-Graduação

“As salas estão cheias de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita” *

Claro que Criolo não estava falando da pós-graduação, mas bem que poderia ser. Diferente do clima agradável do ensino fundamental e médio e até do superior, na pós-graduação as coisas não são tão cor de rosa assim. Mas por quê? Porque como cantou o Criolo, a ganância vibra e a vaidade excita.

No começo das aulas, tudo é harmonioso, as pessoas são legais e solícitas, parece que ali faremos amigos para os próximos dez anos. Mas não demora muito para a verdadeira face da pós-graduação começar a aparecer. E já nos primeiros intervalos em grupo as diferenças e incompatibilidades (pessoais e teóricas) começam a soltar aos olhos de todos.

Na sala de aula, as discussões vão se tornando cada vez mais calorosas, e é claro, que ninguém consegue separar as perspectivas teóricas das relações interpessoais, e aí já viu, né? Inimizade na certa! As discussões que antes tinham um tom acadêmico passam ser cada vez mais pessoais e constrangedoras.  Nos corredores sente-se a inveja do colega que conseguiu aprovar um trabalho naquela super Revista e que vai viajar para apresentar um artigo naquele país que todo mundo quer conhecer. Sem falar nas discórdias que se instauram quando o assunto é a distribuição de bolsas. Aquelas reuniões animadas, os encontros em cafés, as tardes de estudos em grupo, estes também não acontecem.

Além dessa relação amorosa (só que não) entre os pós-graduandos, existe ainda a relação entre os pós-graduandos e seus orientadores que também não é tão pacífica. Na graduação a gente tem aqueles professores queridos que mais parecem uma pessoa da família, que nos orientam e se preocupam conosco. São jantares, lanches e almoços regados a muita aprendizagem em forma de conversa entre amigos. Mas na pós, não, na pós os encontros são mais escassos e super rápidos, não há  tempo a perder. Então, dificilmente faremos professores/amigos para o resto da vida.

Ainda não citei as fofocas depois das aulas, as indiretas nas redes sociais e nas salas de aula, as reclamações dos orientadores e dos pós-graduandos. Enfim, tudo de mais bonito que acontece durante esse período maravilhoso da nossa jornada acadêmica. Diante disto, os recém-chegados a este universo, só pedem uma coisa: mais amor, por favor.

E para finalizar com a mesma canção, uma certeza: “aqui ninguém vai pro céu“.

_________________
*letra alterada pela autora

By |2016-01-12T20:43:29+00:0029-05-2014|debates|24 Comments

About the Author:

Graduada em Comunicação Social (UEPB), Especialista em Comunicação Digital, Mestranda em Serviço Social (UEPB) e graduanda em Administração de Empresas (UFCG). Além de feminista em construção.

24 Comments

  1. Natália Pedroza 29.05.14 at 08:59 - Reply

    Discordo em gênero, número e grau. Conheci meu namorado no mestrado inclusive.

  2. Camila Homem 29.05.14 at 09:09 - Reply

    Falou tudo

  3. Márcio Diniz 29.05.14 at 09:25 - Reply

    Caramba. A minha experiência é exatamente a contrária. Nas pós-graduação, eu me aproximei ainda mais dos professores, conversei sobre assuntos além das disciplinas, compartilhei ideias e perspectivas, pedi conselhos.

    Entre meus amigos, nós compartilhamos nossas dificuldades nas disciplinas, incertezas sobre a vida acadêmica. Ajudamos um ao outro, cada um com suas habilidades específicas e individualidade.
    Fico feliz quando meus amigos são premiados, se sobressaem porque eu relembro que estou rodeado de pessoas excepcionais e é o que me estimula a seguir em frente. Não existe aquele papo que você é a média das pessoas com quem convive?
    Se eu aprendi uma coisa massa, eu quero compartilhar. Não é este o ambiente que tem por objetivo a universidade?

    E os constantes fracassos ao longo da vida estudantil sempre são acompanhados de pessoas que nos emprestam os ouvidos e a própria força para que possamos nos manter em pé. Tem lugar melhor para fazer bom amigos?

    Não sou ingênuo e, certamente, há todas estas situações descritas por ti, mas como em qualquer outro lugar permeado por adultos que ainda são muito incertos sobre si mesmos, não? Há as divergências teóricas e pessoais? Sim, mas por que não aprender a levar as coisas de uma maneira mais leve? É mesmo necessário reproduzir os estereótipos da vida de pós-graduação? Eu, sinceramente, acho que não.

  4. Marianna 29.05.14 at 09:44 - Reply

    SENSACIONAL! Costumo dizer que na pós-graduação vemos o pior do ser humano: inveja, ganância, maldade pura mesmo. Pessoas que negam ajuda às outras, pessoas que atacam umas às outras.. é tanta coisa ruim, que sinceramente, já desistir de ser professora. O pior é que essas coisas não acontecem só entre os alunos, mas entre os professores também. Seria tudo tão mais fácil se todo mundo se ajudasse!

    • Anderson Siqueira 09.06.14 at 09:25 - Reply

      Cara Marianna,

      não desista de ser professora por causa dos outros. Esta não deve ser a variável a ser pesada. Se o seu objetivo de carreira é ser docente, siga-o, independente das pessoas. A complexidade das relações humanas, não está só no mundo acadêmico, mas em todos, nas empresas públicas, privadas, em todo lugar.

      Entendo perfeitamente que muitas vezes acreditamos que o grupo em que estamos inseridos, é perfeito. Docentes universitários, com doutorado, pesquisadores não são os seres mais evoluídos, com mais ética, moral e etc. Muita coisa vem de berço, da família ou da falta dela, das experiências de vida e não vai ser um doutorado que vai consertar.

      Quer ser docente, siga em frente! Quer outra área, maravilha, mas as pessoas estarão lá também.

      Sucesso!

  5. Denise 29.05.14 at 10:06 - Reply

    Já ouvi falar de muitos espaços/laboratórios assim, mas no meu não é assim, há amizades sim, e nossas orientadoras podem ser descritas como humanas e preocupadas com nosso bem estar.

  6. Cris 29.05.14 at 11:18 - Reply

    Nossa, este texto descreveu perfeitamente a minha graduação – os anos mais sofridos e tristes da minha vida – e não parece nem de longe a minha pós.
    Aqui no laboratório, eu posso dizer que não ganhei amigos, eu ganhei uma nova família. O pessoal dos laboratórios próximos sempre estão fazendo uma visitinha no nosso lab, ou eu vou até o deles, conversar um pouco, dar umas risadas no pouco tempo livre que encontramos às vezes. As pessoas que eu conheci aqui e convivo todos os dias são a minha maior motivação pra levantar da cama e vir trabalhar.
    Também conheci aqui professores ótimos, com quem dá até gosto de conversar, porque sei que a conversa sempre vai render um aprendizado, diferente da graduação, onde com a maioria dos professores eu sabia que ia render sempre mais uma frustração. Claro que aqui na pós também tem professores escrotos, mas nem se compara com os que eu tinha na graduação.
    E quanto às conquistas pessoais de cada um, sempre é motivo de festa quando um artigo foi aceito, ou quando alguém conseguiu aquele sanduíche maravilhoso naquele país que é top na linha de pesquisa.
    Além disso, é bem comum que as pessoas compartilhem conhecimentos, sem discussões acaloradas, em que um quer mostrar que sabe mais e desbancar o outro. As discussões são bastante construtivas, quem conhece melhor ensina o que sabe para aquele que não tem muita experiência, além de existir um intercâmbio muito grande de conhecimentos entre as pessoas com formação diferente (no meu lab, por exemplo, eu sou formada em Química e tenho colegas biólogas, farmacêuticas, biotecnólogas, e elas sempre me ajudam muito nas áreas mais voltadas para a Biologia e eu ajudo elas na parte mais voltada para a Química.
    Graças a Deus, o desamor que eu conheci ficou lá na graduação, em outra cidade, em outra IES!

  7. Henrique 29.05.14 at 13:52 - Reply

    Po, minha experiência é o contrário também.

    Estou no mestrado há 1 ano e meio, e fiz aqui grandes amigos. Acho que isso varia muito de programa para programa e de turma para turma. Inclusive, sinto-me mais à vontade aqui do que com minha turma da graduação, na qual essa tal “ganância” era mais explícita.

  8. Marcos 29.05.14 at 15:14 - Reply

    Sobre os professores, totalmente o inverso. No meu caso, na pós eles sempre foram muito mais próximos e acessíveis. Em relação aos colegas, também prefiro os de pós do que os de graduação, por questões de afinidade, inclusive; na graduação, aliás, as bolsas de IC que eram mais raras e a “furada de olho” mais constante.

  9. Alessandra Soares 29.05.14 at 20:03 - Reply

    Depende da instituição. Estou na terceira. Mas teve uma que foi sensacional em termos de amizade!

  10. Natália Mendes 29.05.14 at 21:15 - Reply

    Realmente é bem assim!

  11. ANGELI ROSE 30.05.14 at 09:43 - Reply

    O texto apresenta uma subliminar premissa que pode ser considerada falsa:
    “…Diferente do clima agradável do ensino fundamental e médio e até do superior, na pós-graduação as coisas não são tão (…)”
    Primeiro,o “clima agradável” pode falar da experiência de quem escreve e de pessoas que tiveram experiências em contextos semelhantes,pois num rápido zapear pelo notíciário em mídias eletrônicas ou outras,há muito tempo que o clima não é agradável para muitos grupos sociais na realidade da educação brasileira, nos ensinos fundamental e médio.
    Agradável para quem?A onde?
    Segundo,o clima pouco acolhedor da pós-graduação atual, só espelha o processo torto de democratização do ensino superior,inclusas as pós-graduações.(leia-se o artigo sobre a formação de doutores no Brasil da professora Vera Velho,escrito em parceria com uma de suas orientandas,Michele)
    Terceiro,há uma crença subliminar,discutível,de que a tenras idades trazem ambientes mais acoilhedores,leia-se afetivos, amorosos.(meio “bom selvagem”,Rosseau)
    Sem problemas com a nostalgia,enquanto afeto legítimo, entretanto, é preciso ir além e ver as relações com o Capital, para poder ir “além do capital”.
    Quem quiser fazer parceria para um projeto,elaboração de antologia crítica de produções textuais, estou aberta.
    (profa.dra Angeli Rose,há quase 4 anos DESEMPREGADA,tentando fazer pós-doc e sendo vetada por politicagens,inclusive de colegas de pós-graduações – http://lattes.cnpq.br/4872899612204008,começando a perder vagas em concursos públicos por titularidade)

  12. Natasha 30.05.14 at 16:01 - Reply

    Segundo post da mesma autoria que sinto amargura ao ler. Não sinto o humor, a sátira e a ironia que eram costumeiros no site, só generalizações pessimistas. Que pena…

    • Karol Ramos 02.06.14 at 13:50 - Reply

      O texto geralmente expressa a alma de quem o escreve. Mas pode crer que a autora acredita que o texto foi irônico. Foi apenas amargo e generalista, por conseguinte, burro.

  13. Helena 08.06.14 at 07:06 - Reply

    No meu mestrado fiz muitas amizades e conheci o meu hoje, ex-noivo. No doutorado, vivo em um ninho de cobras, tendo problemas com minha orientadora por fofocas das outras orientandas dela. Qual o pecado que cometi? Sou formada em uma universidade particular e fiz mestrado em uma universidade federal e não fiz IC, mas sou mais competente e elogiada pelos outros orientadores que elas, que se formaram, fizeram IC, mestrado e doutorado na “prestigiada e famosa universidade e com a prestigiada orientadora”. Detalhe: não sabem a diferença entre um canino e um pré-molar!!!! (é verdade, não estou sendo irônica), poderia contar coisas absurdas que os prontuários não me deixam mentir)

    Meu conselho é: se o clima é de camaradagem, aproveite! Se é de competição, inveja e intrigas, treine sua inteligência emocional e ignore. Claro, seja precavido gravando conversas, guardando emails… afina, assédio moral e discussões de ponto de vista divergente são situações completamente opostas!

  14. Mayara 11.06.14 at 00:11 - Reply

    Pode ser que, em linhas gerais, falte amor… Mas, apesar dos muitos pesares que tenho que lidar para fazer o doutorado (morar 700km de distância do programa e ter de viajar toda semana, não estar afastada do trabalho, estar em uma nova área – diferente da do mestrado), tenho sido muito feliz! Ah, tem muito amor sim… Assim como o falta em muitos momentos! É o mundo da contradição, da qual não podemos escapar! É imperativo que façamos da academia um lugar menos duro, obviamente! Esse é um processo cheio de atravessamentos, embates, formação política (penso que falta mais formação política que amor na Pós-graduação!)… Mais que olhar para o resultado (falta de amor), temos que nos voltar para o que tem causado isso! Um exemplo é a política de produtividade, cheia de ódio, que coloca as pessoas numa competição insana! Talvez tenhamos que lutar contra esses monstros que semeiam a discórdia! Apesar de que harmonia é falácia… Já dizia o poeta: “antes o atrito que o contrato!”

  15. Wanderson 22.05.16 at 01:20 - Reply

    Concordo em tudo, mas no meu caso, ainda estou na graduação e há 1 ano e meio sou aluno de IC, recebi prêmios nacionais, estou com 18 artigos publicados, alguns em revistas internacionais, e por conta disso sofro na faculdade por inveja dos meus colegas, só que agora não são somente os alunos, profesores estão tentando puxar meu tapete, professores q se olhar o lattes não tem nenhuma publicação e não que um aluno tenha um lattes maior q o dele. É triste essas coisas, pois esses deveriam incentivar os alunos e não tentar prejudicar a todos custo, outro dia fui penalizado por uma professora que não me deixou fazer prova de segunda chamada, eu havia perdido a primeira oportunidade pq estava em um congresso científico apresentando trabalho.

  16. Zigm 25.05.16 at 01:40 - Reply

    Análise a ser analisada.

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