Ensino superior: na prática, a teoria é outra?

Existe um senso comum entre os estudantes de ensino superior de que os conhecimentos ensinados durante o curso são muito distantes da realidade do mercado de trabalho. Existe até um famoso bordão repetido exaustivamente pelos corredores e salas de aulas universitárias de que “na prática a teoria é outra”.

Uma frase interessante, se levarmos em consideração que a palavra “prática” significa a realização de uma teoria concretamente, ou seja, uma teoria só é considerada como tal se for provada pela prática. Portanto, não existe teoria sem prática. Quem faz ciência sabe que as teorias surgem de observações, de repetições de experiências ou de problemas práticos.

Entre um cliente e um consultor, qual possui maior experiência da sua atividade? O cliente, sem dúvida. A maioria dos clientes possui a experiência acumulada da observação de um grande número de problemas e situações vivenciadas durante muitos anos de atividade profissional.

Entretanto, quando o cliente encontra um problema que não consegue resolver, a quem ele recorre? Ao consultor, claro. Repare que mesmo com uma menor experiência, ou “prática”, os conhecimentos teóricos aprendidos durante o curso superior possibilitam ao consultor compreender o que está acontecendo e propor soluções.

Na verdade, o que muitos estudantes procuram justificar com o bordão citado no início do texto é que os profissionais do mercado de trabalho realizam procedimentos ou tomam decisões técnicas diferentes daquelas ensinadas em sala de aula.

Entretanto, não é porque algo é realizado costumeiramente, que é correto. Os pesquisadores da área da saúde, por exemplo, já comprovaram com diversas pesquisas que o ato de fumar tem como consequência direta o câncer de pulmão. Mas segundo o IBGE, cerca de 25 milhões de brasileiros são fumantes. Ou seja: não é porque milhões de brasileiros fumam que isso será algo ideal ou recomendável para a sua saúde.

Os professores universitários precisam ensinar o que um profissional precisa e deve saber, e não que o mercado faz ou deixa de fazer. A realidade do mercado pode ser utilizada como exemplo das aplicações corretas ou equivocadas dos conceitos discutidos. Afinal os futuros clientes não precisam de uma consultoria para continuar a repetir os mesmos erros que sempre fizeram. Eles precisam de profissionais que conheçam a maneira correta e econômica de realizar suas atividades e que consigam adaptar para cada realidade as condições ideais aprendidas durante o ensino superior.

Para finalizar, vale lembrar que existe um grande equívoco em relação aos objetivos do ensino superior no Brasil. Muitos esperam que um curso superior “treine” o profissional para trabalhar em determinada empresa, o que em outros países é realizado em cursos técnicos. Os cursos técnicos estão ligados basicamente aos aspectos práticos de determinada atividade e encerram um conjunto de conhecimentos mais objetivos. Já os cursos superiores se caracterizam pelo domínio dos princípios científicos e tecnológicos próprios a um determinado ramo de atividade humana.

By |2018-12-06T01:56:46+00:0023-05-2012|debates, docência|6 Comments

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Criador e editor de conteúdo do blog, é portador de uma imaginação hiperativa e de uma necessidade patológica de estar sempre bem-humorado. Acredita que a Pós-Graduação, como tudo na vida, pode ser interessante, divertida e descomplicada.

6 Comments

  1. Tereza Jardim 25.05.12 at 08:28 - Reply

    Texto maravilhoso! 

  2. Tereza Jardim 25.05.12 at 08:34 - Reply

    A situação colocada no texto é realmente pertinente para quem atua no ensino superior. Na defesa da minha monografia, ao final da graduação em Design de produtos, um dos membros da banca começou suas considerações afirmando que há os designers práticos, os teóricos, e os que conseguem unir as duas coisas. 

    Quando me formei, já sabia que não atuaria no mercado como designer, e desde então eu me apresento como fotógrafa formada em design. No entanto, a decisão pela busca do diploma após uma desistência no último ano refletia minha vontade de seguir carreira acadêmica.

    Embora eu não me sinta à vontade com a prática criativa do design, continuo apaixonada por estudar as bases teóricas e conceituais que devem nortear as decisões de um profissional no mercado de trabalho, e é isso o que me faz ter tanto prazer na docência do design. 

  3. Angélifa Ferreira 25.11.12 at 08:50 - Reply

    Ótimo texto, adorei!!!

  4. Daniel Maciel 21.12.13 at 11:45 - Reply

    Escrevi algo a respeito e parece que ambos os artigos concordam em gênero, número e grau.

  5. Flavio Farah 02.07.14 at 06:49 - Reply

    Por que você não se identifica?

  6. Marinalva Rodrigues 08.09.14 at 15:47 - Reply

    gostei muito do texto é bem rico em informações.

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