A ciência brasileira se preocupa mais com a quantidade ou a qualidade da sua produção?

Caro leitor, respondo a seguir à questão acima que me formula. Para fazê-lo irei, de modo paradoxal, dar como resposta tanto uma quanto a outra das alternativas. Gostaria também, desde já, de endereçá-lo para os artigos no blog “Democracia e Transparência em C&T“, de que tenho a honra de participar, e que embasam muito do que irei comentar abaixo. Daqui em diante irei usar DTCT como abreviatura para o nome do blog.

Mais qualidade
Primeiro, coloco-me em uma perspectiva um pouco irrealística de que a “Ciência” seja algo muito maior do que aquilo que praticamos nós cientistas. Sendo um pouco mais preciso, a boa Ciência é aquilo que, como os organismos vivos, sobrevive após muitos anos de um árduo processo de “seleção natural”.

Já que entramos por este caminho, para melhor situar o que quero dizer, considero que o legado de Darwin é grande Ciência. Assim como o de Einstein, ou de Mendel, ou… Caro leitor, acrescente aqui seus ídolos científicos. Pois bem, a resposta é então óbvia deste ponto de vista. Não só a Ciência brasileira, como qualquer outra que mereça usar este nome, se preocupa mais com a qualidade da produção.

Mais quantidade
A segunda resposta segue porém de constatações mais terrenas. Não tenho pretensões de ser um Einstein. Além do mais, fazer ciência custa caro. Para conseguir algum sucesso é preciso ter-se uma biblioteca bem equipada com livros clássicos e recentes e acesso a periódicos científicos, dinheiro para frequentar congressos e realizar intercâmbio com outros cientistas. Ter alunos e colegas de bom nível em torno de si também ajuda bastante.

Estas condições em geral somente são atingidas em boas instiuições de ensino superior ou institutos de pesquisa. No Brasil, estes são quase sempre públicos, embora haja honrosas exceções na esfera privada. Tais instiuições custam muito caro e, além da verba necessária para a manutenção das mesmas, há a verba necessária para a pesquisa propriamente dita, que inclui também na maior parte dos casos a aquisição de equipamentos, material de consumo, pagamento a pessoal técnico…

Financiamento das pesquisas
Não é privilégio do Brasil a dificuldade em se conseguir verbas para o financamento da pesquisa. Tal dificuldade acende uma concorrência desenfreada para se conseguir o financiamento. Para se ter sucesso é necessário convencer aqueles que julgam os pedidos de que a sua proposta não é só meritória, mas melhor do que a dos concorrentes. Não sei localizar precisamente quando o fenômeno começou, mas certamente foi nos EUA, talvez na década de 70. Seu nome em inglês é “publish or perish“, ou seja, “publique ou morra”.

Publish or perish
Com relação ao uso do inglês, ainda que eu mesmo o considere necessário, e outros elementos para responder a pergunta do título, recomendo a leitura bem humorada no DTCT de “Publicar mais ou melhor? – O Tamanduá Olímpico“, de Luiz Oswaldo Carneiro Rodrigues. Pois bem, dentro da lógica do “publish or perish”, o número de publicações passou a ser o critério, supostamente objetivo, para melhor se aferir a qualidade de um concorrente no processo de se obter financiamento para a pesquisa. Alguém aí falou em qualidade??

Dou portanto a segunda resposta à pergunta proposta: para se fazer ciência no Brasil e em qualquer outro lugar que conheço no mundo, é necessário preocupar-se muito com a quantidade de publicações. Ou, em vez deste número, alguma outra versão mais ou menos equivalente do mesmo: número de citações, fator de impacto médio das revistas, conceito das revistas no Qualis da CAPES, fator H, etc e tal.

Eu te cito e você me cita
Por causa desta necessidade inventaram depois, possivelmente também lá nos EUA a aliteração “push your parish”, ou seja “dê um empurrãozinho na sua paróquia”. Para publicar mais e ter mais citações (e portanto maior fator de impacto, maior fator H) é necessário formar e impulsionar sua paróquia. Eu te cito e você me cita. Você escreve o artigo hoje e nós dois assinamos; depois eu te pago. Se você, como “referee”, barrar o meu “paper”, depois eu te pego na esquina. Olha, este artigo é do grupo do Fulano; é uma porcaria, mas não podemos barrar algo dele. E daí por diante.

Blog Democracia e Transparência em C&T
Há dois artigos no DTCT a este respeito. Um é “Integridade sob ataque: O estado da publicação acadêmica” de Douglas C. Arnold, presidente da SIAM, uma importantíssima e séria sociedade na área de Matemática Aplicada. Conta com propriedade problemas com práticas desonestas por parte de editores de revistas científicas, plágio e outras misérias humanas. O outro é “Avaliação Bibliométrica de Pesquisadores: não é correta… nem mesmo errada“, de Frank Laloë e Rémy Mosseri. Esse aí tem até uma infalível e gostosa receita para melhorar seu índice H.

Tendo fornecido duas respostas à pergunta que me foi colocada, atenciosamente me despeço.

Ah, sim, você quer saber qual das duas respostas eu uso em meu dia-a-dia?
Bem, detesto dar conselhos. Depois, é necessário levar em conta o caráter de cada um, sua situação individual. É preciso saber, caro leitor, se, mesmo sem chegar a ser um Einstein, você gostaria de ser lembrado como um cientista sério. É preciso saber se você tem prazer em fazer Ciência, ou se encara a ciência como uma espécie de negócio em que é preciso a todo custo conseguir o financiamento para fazer mais ciência. Ou se você quer escrever artigos para que sejam citados, ou se você quer mesmo é que sejam lidos, apreciados e utilizados. Se você deseja aumentar o comprimento de seu currículo ou contribuir, mesmo que modestamente, para a solução dos problemas da humanidade.

Quase tudo o que falei acima vale tanto para o Brasil, quanto para o resto do mundo. Para falar um pouco do Brasil, felizmente tenho percebido nos últimos anos algum melhoramento na situação do financiamento à pesquisa. Mas há muito ainda a ser feito, pois a concorrência pelas poucas verbas é acirrada e muitos pesquisadores ou são sub-financiados, ou são deixados completamente sem verbas. Para que pesquisadores tenham liberdade total para responder à pergunta do título das duas maneiras possíveis, cada um segundo a sua especificidade individual, é necessário que a quantidade de verbas aumente substancialmente e as diretrizes para a sua distribuição passem a levar mais em conta o critério de qualidade.

Espero ter-lhe sido útil. Saudações.

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*Texto escrito por Armando G. M. Neves, professor associado da UFMG (Depto. de Matemática), 1º vice-presidente da Apubh e colaborador do blog Democracia e Transparência em C&T