O projeto de pesquisa é o primeiro passo de toda pesquisa científica. Mas elaborar um projeto antes de iniciar uma atividade não é exclusividade da Ciência. Antes de construir uma casa, iniciar uma empresa, realizar uma viagem ao exterior ou criar uma campanha de marketing, por exemplo, também é necessário realizar um planejamento que minimize os riscos e aumente a probabilidade de sucesso.

Antes de começar a construir uma casa, você procura se informar sobre os materiais de construção que terá de adquirir, sobre a mão-de-obra que precisará contratar e, principalmente, sobre o dinheiro que terá que desembolsar, tendo em mente qual é a aparência, o resultado final, da obra que você quer realizar.

Em um projeto de pesquisa, o raciocínio é exatamente o mesmo: realizar o planejamento detalhado de uma pesquisa que se pretende realizar.

Assim, antes de iniciar uma pesquisa científica, é preciso pensar em respostas para perguntas como “Por qual motivo estou realizando essa pesquisa?“, “Que infraestrutura será necessária para realizar essa pesquisa?“, “Qual é a melhor forma de realizar essa pesquisa?” e “Que recursos humanos e financeiros serão necessários?“. Além de facilitar o trabalho e antecipar dificuldades, o projeto proporciona ao cientista a chance de refletir sobre a pesquisa como um todo, antes mesmo de começá-la.

Compreender as partes de um projeto de pesquisa se torna muito mais fácil quando se tem um bom conhecimento sobre o método científico. De maneira geral, as etapas do método científico para a resolução de um problema consistem em:
– definição e delimitação de um problema de pesquisa;
– formulação da hipótese;
– coleta de dados;
– análise e interpretação dos resultados; e
– rejeição ou não rejeição da hipótese (Vianna, 2001).

Como as pesquisas científicas diferem muito entre si, não se pode falar em um roteiro rígido para elaboração de projetos de pesquisa. É possível, no entanto, oferecer um modelo relativamente flexível, que considere os elementos considerados essenciais. Assim o roteiro a seguir foi elaborado de acordo com manuais de universidades e de institutos de pesquisa, em observância às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

1. Formule um bom problema de pesquisa

projeto de pesquisa

De modo geral, o cientista inicia o processo de pesquisa com a escolha de um tema de pesquisa, que por si só não constitui um problema de pesquisa. Ao formular perguntas sobre o tema, provoca-se sua problematização. Portanto, a maneira mais fácil e direta de formular um problema de pesquisa é elaborar uma pergunta sobre determinado tema (Santos, 2015).

A pergunta que você gostaria de responder por meio da sua pesquisa é a base fundamental do seu projeto de pesquisa. Os objetivos da pesquisa serão elaborados de acordo com essa pergunta. Os métodos propostos deverão possibilitar a descoberta da resposta para essa pergunta. Os resultados esperados deverão estar relacionados com essa pergunta.

Note que o problema de pesquisa, elaborado na forma de pergunta, norteará a avaliação de todas as partes do projeto de pesquisa, de forma que todo o planejamento seja realizado da maneira mais adequada possível para resolver o problema de pesquisa. Por isso, perguntas mal elaboradas costumam resultar em pesquisas igualmente de má qualidade (Cervo e Silva, 2006).

De maneira geral, as perguntas podem ser divididas em três grupos:
– Como esse fenômeno é? (Descrição)
– Com o que esse fenômeno está associado? (Associação)
– No que esse fenômeno interfere? Ou o que interfere nesse fenômeno? (Associação com interferência)

Um bom problema de pesquisa deve ser:
– claro e preciso (todos os conceitos e termos usados em sua enunciação não podem causar ambiguidades ou dúvidas);
– empírico (ser observável na realidade; que pode ser captado pela observação e por meio de técnicas e métodos apropriados);
– delimitado (deve estabelecer os limites da pesquisa);
– passível de solução (é necessário que exista uma maneira de produzir uma solução para o problema com o tempo e os recursos disponíveis).

2. Formule a hipótese do seu trabalho

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Uma hipótese é uma resposta provisória ao problema, com intenções de ser posteriormente demonstrada. A hipótese é necessariamente uma afirmação, que consiste em uma resposta à pergunta definida como problema de pesquisa, que ainda não foi testada (Andrade, 2014).

Essa possível solução para o problema, a hipótese, será declarada falsa ou verdadeira após a realização da pesquisa científica. Boa parte dos testes estatísticos são realizados para auxiliar na tomada de decisão sobre rejeitar ou não rejeitar uma hipótese.

Em relação às principais características, uma boa hipótese deve ser:
– uma afirmação (uma hipótese não é uma pergunta, uma hipótese é uma afirmação sobre algo);
– simples (uma boa hipótese é escrita em linguagem simples, de maneira a expressar exatamente a teoria que será testada por meio da pesquisa científica);
– sujeita à negação (uma hipótese deve poder ser negada. Caso seja impossível estabelecer a sua negação dificilmente será considerada uma hipótese).

Mas então toda pesquisa científica possui uma hipótese? Não. Existem pesquisas, muito úteis, que são apenas exploratórias. A finalidade destas pesquisas exploratórias é obter informações sobre um assunto ainda pouco conhecido. Portanto, o objetivo é apresentar novas evidências, ideias e até mesmo concluir que algo não existe. Ao final de uma pesquisa exploratória, o cientista conhecerá mais sobre determinado assunto e, por isso, estará apto a construir hipóteses a partir dele (Barros e Lehfeld, 2007).

3. Elabore os objetivos gerais e específicos

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Os objetivos constituem a finalidade de um trabalho científico, ou seja, o que se pretende atingir com a realização da pesquisa. O objetivo segue a mesma ideia da pergunta, redigido, entretanto, como uma sentença afirmativa direta. Se o problema de pesquisa é a questão a ser investigada, o objetivo é o resultado a ser alcançado (Lakatos e Marconi, 2010).

Dependendo da magnitude do projeto de pesquisa, os objetivos podem ser divididos em gerais e específicos. Como o próprio nome diz, os objetivos gerais são aqueles mais amplos. Na maioria das vezes, o primeiro e maior objetivo do cientista é o de obter uma resposta satisfatória ao seu problema de pesquisa.

No entanto, para se cumprir os objetivos gerais é preciso delimitar ações mais específicas, chamadas de objetivos específicos. São estes objetivos específicos que, somados, irão proporcionar a realização do objetivo geral (Perovano, 2014).

A formulação dos objetivos – sejam eles gerais ou específicos – se faz mediante o emprego de verbos no infinitivo: avaliar, testar, descrever, investigar, identificar etc.

Temas, problemas, hipóteses e objetivos

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Alguns exemplos de temas, problemas, hipóteses e objetivos de pesquisa:

Tema de pesquisa: estresses abióticos em plantas
Problema de pesquisa: a aplicação foliar de aminoácidos afeta a tolerância das plantas de soja à seca?
Hipótese: a aplicação foliar de aminoácidos aumenta a tolerância das plantas de soja à seca.
Objetivo geral: avaliar o efeito da aplicação foliar de aminoácidos sobre a tolerância à seca em plantas de soja.
Objetivos específicos: avaliar os mecanismos de tolerância à seca em plantas de soja; avaliar as repostas fisiológicas das plantas de soja à aplicação foliar de aminoácidos; verificar se existe correlação entre a aplicação foliar de aminoácidos e a tolerância de plantas de soja à seca.

Tema de pesquisa: Consumo de drogas
Problema de pesquisa: Qual é a influência do status social do jovem no consumo de drogas?
Hipótese: O consumo de drogas independe do status social dos jovens.
Objetivo geral: Avaliar a influência do status social do jovem no consumo de drogas.
Objetivos específicos: avaliar as principais causas do uso de drogas entre jovens; caracterizar o perfil dos jovens que consomem drogas; investigar se existe correlação entre o status social e o consumo de drogas.

4. Revisão bibliográfica

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Acredite: alguns dias na biblioteca podem evitar meses de trabalho errado no campo. Relacione os conceitos básicos do tema escolhido com as aplicações sobre o problema de pesquisa formulado. Levante o “estado da arte”, ou seja, quais informações já foram descobertas a respeito do problema de pesquisa e quais são as fronteiras do conhecimento nesta área.

Comece pelos livros clássicos, aqueles que são referência área do projeto de pesquisa, e afunile as informações os resultados publicados na forma de artigos em periódicos científicos. Ao ler estes artigos científicos, procure não se ater apenas aos resultados encontrados, mas também aos procedimentos utilizados na pesquisa (Andrade, 2014).

Uma revisão bibliográfica bem escrita irá fornecer indícios sobre os rumos que a pesquisa deve seguir, sobre os procedimentos adequados e, principalmente, irá proporcionar informações que serão utilizadas na discussão dos resultados, quando a pesquisa já estiver na fase de análise de dados (Creswell, 2010). Ou seja: caprichar na revisão bibliográfica do projeto de pesquisa pode facilitar o trabalho da redação posterior do artigo ou da monografia.

5. Material e métodos

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Na seção de “material e métodos” devem ser listados todos os procedimentos, materiais, equipamentos e métodos necessários para testar suas hipóteses e alcançar seus objetivos. Em áreas experimentais, essa parte do projeto de pesquisa costuma seguir o seguinte roteiro: localização da área experimental, delineamento experimental, tratamentos avaliados, controle das condições experimentais, variáveis analisadas e análise estatística (Vianna, 2001).

Mas como saber se o “material e métodos” do seu projeto de pesquisa está bem escrito? Simples: entregue seu projeto de pesquisa a uma pessoa que não é da sua área e verifique se ela conseguiria executar sua pesquisa exatamente da forma que você executaria. Se ela tiver dúvidas sobre como deve realizar algo, provavelmente seu projeto não está suficientemente claro.

6. Cronograma

O planejamento dos procedimentos descritos na seção “material e métodos” ao longo do tempo é realizado no Cronograma de Execução. Geralmente o cronograma é disposto em uma tabela com as atividades nas linhas e os meses ou as quinzenas nas colunas (Parra Filho e Santos, 2011).

7. Referências bibliográficas

Tudo aquilo que não é de sua autoria deve ser devidamente referenciado por meio de paráfrases (preferencialmente) e listado nas referências, caso algum outro pesquisador ou consultor queira ter acesso às obras citadas.

8. Introdução

Como o próprio nome define, a “introdução” é a parte do trabalho que introduz o leitor ao tema da pesquisa. Deve ser escrita de maneira que forneça uma visão geral da pesquisa a ser realizada, situando o problema no contexto a ser trabalhado (Severino, 2015).

Embora esteja disposta nas páginas iniciais do projeto de pesquisa, a introdução é mais facilmente elaborada quando as outras partes do projeto já tiverem sido redigidas, ou seja, agora que a essência do projeto já foi redigida, é possível ter uma visão mais ampla do projeto de pesquisa.

Apresente ao leitor qual será a sua pesquisa e porque pretende executá-la. Isso envolve mostrar a problemática que originou a pesquisa e a fundamentação que o levou a escolher seu objetivo. Na introdução, portanto, estão contidas as justificativas do tema abordado. Convença o leitor sobre a importância e a originalidade da pesquisa proposta.

9. Título do projeto de pesquisa

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Apesar de ser o primeiro item a ser lido em um projeto, o título também pode ser escrito quando já se tem uma visão mais abrangente do projeto.

Algumas dicas importantes:
– evite começar o título com as palavras efeito, influência, avaliação, estudo, interação, etc. Se você está estudando, é óbvio que é para ver o efeito, a influência e por aí vai.
– comece o título com a palavra mais importante do seu trabalho. Se você fosse resumir o seu projeto de pesquisa em uma única palavra, qual seria? Pois comece o seu título por ela.
– o título deve ser claro e conciso, permitindo uma compreensão inicial da sua finalidade. Terminada a redação do título, veja a coerência com os objetivos.