Por que escrever um artigo científico?

Escrever artigos se tornou uma febre em nossas universidades, e o contágio, de maneira geral, já ocorre na iniciação científica. Ou seja, a pressão exacerbada por publicações já atinge até aqueles que estão tendo os primeiros contatos com o método científico – e que deveriam ter outras preocupações nesta etapa da vida acadêmica.

Neste cenário, não é raro ver pesquisadores escrevendo artigos simplesmente por escrever. E muitas vezes não o fazem por mal: escrever artigos se tornou algo tão normal, comum e necessário, que poucas pessoas param para refletir a respeito.

Mas em resposta à questão-título deste post, os principais motivos para escrever um artigo científico são:

1. COMUNICAR SUA DESCOBERTA

Depois de formular uma pergunta inquietante, você planejou e executou uma pesquisa para respondê-la. Se você conseguiu uma resposta satisfatória, não faz sentido algum guardá-la para si após todo esse trabalho.

Este é o principal motivo para escrever um artigo científico: divulgar sua descoberta para a comunidade acadêmica. Repare que a redação do artigo científico não é – e não deve ser – o propósito da pesquisa. O artigo é meramente a etapa final de um longo processo que se iniciou com a elaboração das hipóteses do trabalho.

É por meio do artigo científico que o cientista contribui com a expansão do conhecimento, e torna pública suas descobertas para toda a sociedade.

“O artigo científico acontece por causa da pesquisa, e não o contrário!”

2. VALIDAR SUAS CONCLUSÕES

Não é porque você acha que tem a resposta certa para determinada questão que isso necessariamente é verdade. Todo cientista é um ser humano e, como tal, sujeito às falhas. Algum erro conceitual ou metodológico pode ter passado despercebido durante a pesquisa, ou até mesmo as conclusões formuladas podem ser equivocadas.

Ao publicar um artigo científico, o cientista submete sua pesquisa ao crivo de seus pares (às vezes, tão ímpares…), possibilitando, assim, que a comunidade acadêmica possa avaliar, estudar e, principalmente, discutir e tentar replicar as descobertas da pesquisa.

Esta é a razão pela qual resultados não publicados não são levados a sério pela comunidade acadêmica, mesmo que estejam corretos. A publicação do artigo é a primeira etapa de validação da pesquisa científica.

3. GARANTIR O CRÉDITO PELA DESCOBERTA

Na Ciência, o crédito vai para o cientista que primeiro convence o mundo de uma ideia, e não necessariamente para aquele que a teve primeiro. Relatos de casos em que dois pensadores chegaram às mesmas descobertas ou conclusões por caminhos distintos são muito comuns na história da Ciência.

A publicação científica, nesse sentido, tem a função de registro histórico, sobretudo para as pesquisas que inicialmente não resultam em patentes. Publicar um artigo científico consistente é uma forma eficiente de garantir a precedência e a originalidade da pesquisa científica realizada.

E O CURRÍCULO?

Mas todo mundo escreve artigos para aumentar o currículo, para ser aprovado no concurso público ou para ganhar bolsa de produtividade!

Estes, caro leitor, não são bons motivos para escrever um artigo científico. Na verdade são apenas consequências naturais do seu trabalho, do seu esforço e da sua dedicação à Ciência.

Eu acredito que sua mãe deve ter dito isso a você em algum momento da sua vida – as mães geralmente adoram dizer isso – mas não custa relembrar: “Você não é todo mundo!

Se você está cursando uma Pós-Graduação stricto sensu, então você está em um período de preparação e treinamento para a vida de professor universitário ou de cientista. É o momento adequado para se perguntar: “Que tipo de cientista eu quero ser?

Você quer ser apenas mais um desta massa insossa de pesquisadores que ininterruptamente repetem experimentos, que têm na publicação um fim e não um meio, que “trocam” nomes em artigos científicos dos quais nem imaginam o conteúdo, que criam “panelinhas de citações”, que dividem uma pesquisa em dezenas de partes ou que publicam a mesma pesquisa em diferentes periódicos?

Qual é a carreira que você quer construir? Qual é a reputação profissional que você quer merecer? E, por fim, como é que você quer ser lembrado?

De acordo com suas respostas a estes questionamentos, você com certeza encontrará a motivação certa para escrever os artigos científicos.

By |2018-12-06T01:56:27+00:0008-02-2014|debates|12 Comments

About the Author:

Criador e editor de conteúdo do blog, é portador de uma imaginação hiperativa e de uma necessidade patológica de estar sempre bem-humorado. Acredita que a Pós-Graduação, como tudo na vida, pode ser interessante, divertida e descomplicada.

12 Comments

  1. Renata 10.02.14 at 07:05 - Reply

    Faço suas as minhas palavras. Atualmente, tem se o aumento da produção de artigos mas, o nível de qualidade muito baixo. Tem uns ou outros que salvam, claro. Infelizmente até mesmo pessoas com renome cometem erros em sem nexo em revistas famosa de publicações… Eu sou integrante de um núcleo de estudos e sempre pegamos artigos para discutir e sempre percebemos baixa qualidade e erros cometidos. Estamos aprendendo com isso. ^_^

  2. Daiana 15.02.14 at 15:03 - Reply

    A realidade se mostra sempre igual, mas é “reconfortante” saber que não se está sozinho kkkkk
    Adoro o seu bom humor!!!

  3. Maria Melko 27.04.14 at 22:13 - Reply

    Concordo com o que foi dito no post, no entanto as universidade e o Capes não pensam assim, eles EXIGEM publicações para conceder bolsas e demais oportunidades, isso é uma lástima, pois atropela o processo natural do cientista. Essas “panelinhas de citações”, assim como o “clube do bolinha” da academia, são o reflexo disso!

  4. Felipe 23.05.14 at 21:06 - Reply

    A Capes e os programa de pós graduação exigem produtividade. Isso é lastimável, uma bobagem. Escreve-se muito para não dizer nada. Debatem poder sem exercer o poder. O que se vê é uma reprodução desenfreada de artigos que ninguém se interessa, que a poucos importa. O estudante, o cientista deve produzir segundo suas necessidades intelectuais e não para aumentar o currículo. Esse critério está equivocado, pois torna uma obrigação desestimulante e maçante. O ato de pensar vai além disso.

  5. Alex Vazzoler 24.05.14 at 12:45 - Reply

    Ciência lúdica não enche barriga filho .. quem não publica se lasca … sem publicações .. sem conceito capes .. sem bolsas

    • Nanda 09.09.16 at 20:20 - Reply

      Verdade!

  6. Rita de Cassia Gallani 09.06.14 at 22:41 - Reply

    Adorei! !! Mega Ultra! !!!

  7. Renato 21.01.16 at 21:08 - Reply

    A pressão por publicações chega perto de ser insuportavel. Não basta ter que fazer um projeto virar uma tese. Os seus resultados têm q ser bons e vc tem q publicar numa revista de impacto. O ditado de quem não publica se estrumbica me incomoda muito. Boa parte da pressão seria reduzida se essa cobrança não fosse tão grande. Pelo menos no meu caso posso falar q trabalharia com mais paz e tranquilidade se eu entrasse no lab pensando q estou de fato fazendo uma pesquisa, que pode ter resultados satisfatórios ou não. A realidade e temos q entrar no lab p provar alguma coisa. E no meu estágio no exterior senti isso numa escala muito maior. Não falta dinheiro e nem equipamento, em compensação a cobrança por artigos triplica. Infelizmente não vejo muita escolha, a não ser q um dia eu se torne líder de pesquisa de um grupo, por enquanto, pelo menos na minha vivência, quem não publica está fora de tudo…não tem doutorado, não tem estágio, não tem congresso , nem pós-doutorado e nem financiamento. infelizmente a regra p mim tá clara: faça seu projeto virar uma tese, tenha resultados bons, faça virar p máximo de artigos q puder o mais rápido possível. Muita gente não suporta toda essa pressão e acaba adoecendo mentalmente.

  8. Para expor no Lattes.

  9. Matheus 14.10.16 at 23:08 - Reply

    Ouço falar bastante que esse ambiente acadêmico pode ser um tanto competitivo e desonesto. Iniciei a graduação há pouco tempo e não me envolvi com muita coisa ainda. É um pena saber que as coisas caminham desse jeito.

    Tive a mesma impressão quando entrei no serviço público. De fora, parece mil maravilhas. Mas só parece mesmo: falta de estrutura, burocracia, coisas mal feitas… enfim, incoerente!

    Não sei fora do Brasil, ainda que eu acredite que esse ambiente acadêmico hostil seja em todo o mundo, mas aqui tudo, e não apenas a academia, parece (pode não ser tudo, mas uma parte bem considerável!) seguir essa lógica: da desordem, da corrupção, do jeitinho meia-boca. Isso leva os outros ao desestímulo, e o ciclo continua…

  10. Raissa Peregrine 16.01.17 at 19:13 - Reply

    Estou na graduação ainda, e pretendo começar um projeto de pesquisa baseado em um caso que acompanhei com um colega no meu período de estágio, com a supervisão de um orientador graduado, estamos recolhendo informações e montando toda uma pesquisa em cima de um caso; Contudo, estamos fazendo isso para aprendermos sobre o caso, e expandir nossa pesquisa para outros meios a fim de conhecê-los também, uma aluna curiosa é o tipo de cientista que quero me tornar, e para isso quero me preparar desde cedo, errar e tentar mais uma vez, e com consequências que podem ou não preencher o meu currículo. Gostei dos termos que abordou e as razões para procurarmos começar um artigo, espero que a preparação com antecedência me molde para o futuro.

  11. Joao Paulo 12.04.17 at 14:31 - Reply

    Tá, mas ai vai a pergunta: e quando vc fez um projeto de pesquisa pra pos e no meio das aulas um aluno esta roubando suas ideias, metodologia e conclusoes?
    Se a pós de doutorado exige projeto inedito, como vou provar que o trabalho é meu? Isso está acontecendo no meio academico e as pessoas fazem de conta que não.
    Como se resolve isso?

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