É só uma pós-graduação (But I Like It)

É noite de sexta-feira. Finalmente. Você pega o chocolate, acende umas velas, liga o rock’n roll e… vai pro computador analisar os resultados da semana! Como você contava os minutos por esse momento de paz para estar com… é, seu projeto de pesquisa!

Sejamos francos: em muitos momentos, uma pós-graduação não deve fazer sentido nenhum para você.

Afinal, por que você trocou uma vida “normal” por essa montanha-russa intelecto-emocional entrópica sobre trilhos instáveis? E o pior, se você já lia os posts deste blog e sabia que ia ser assim, por que é que você ainda insistiu em fazer uma pós-graduação? Só pode ter algo errado com você.

E ainda assim, curiosamente, aposto que você não se arrepende de estar fazendo uma pós. Só pode ter algo errado com você

[2].

E tem. O que está errado é que apesar de tudo você gosta dessa vida de pós-graduando. Você está nessa por um objetivo maior, mas você também está nessa pela trajetória – sério, quantas pessoas podem dizer isso de um trabalho “de verdade”?

Pode parecer loucura, mas no fundo você deve “gostar” até dos perrengues. Em uma pós eles são incontáveis e imprevisíveis, mas são eles que (enquanto destroem sua vida social) mostram a você mesmo do que você é capaz. E quanto pior o perrengue, maior a recompensa – daí vem aquela profusão de sentimentos conflitantes.

Porque você se quebra pra escrever um artigo em 5 dias, mas você quase não acredita quando consegue. Porque você questiona o valor da sua pesquisa, mas um resultado certo te deixa bobo de tão feliz. Porque um lado seu quer chegar cedo em casa, mas o outro pensa “Uau…! Eu acabei de passar 14 horas seguidas no laboratório!?”. E porque depois que você passa alguns anos sofrendo na pós, você se sente simplesmente extasiado quando a finaliza – imagine-se olhando para aquela pilha de papéis (sua tese, pronta!) e saber que aquilo não se materializou sozinho.

O curioso é que além (das recompensas) dos perrengues em si, você também gosta de como essa vida corrida o torna parte de um seleto grupo maluco: os pós-graduandos. Por que? Ninguém entende! Só eles.

Eles conhecem o desespero do projeto que não anda, da bolsa que não cai, da defesa que se aproxima. Eles sabem que o seu “estudo” na pós é um trabalho pra lá de 40 horas semanais e também reviram os olhos e balançam a cabeça pra quem acha que não é. E, assim como você, eles nunca vão negar um convite para comida de graça num coffee break… na verdade, normalmente você não precisa se preocupar em convidá-los: eles já estão lá. Afinal, eles se identificam com você, e você com eles.

Desse jeito, a pós-graduação com todos os seus perrengues acaba nos unindo. Encontrar espalhados por aí os outros que também estão nessa, gera um misto de compaixão com alegria (ou alívio por não estar sozinho), e então surge aquela sensação de rir junto pra não chorar. E, como bons pós-graduandos, a gente ri.

By |2018-12-06T01:56:34+00:0031-08-2013|humor|20 Comments

About the Author:

Bióloga, mestra em Biotecnologia e Biociências pela UFSC e atualmente doutoranda em Microbiologia na UFRJ. Escreve neste blog às quintas-feiras.

20 Comments

  1. Amei seu texto, Elisa! Tanto pelo conteúdo quanto pela forma como vc o transmitiu. Realmente a pós-graduação é uma experiência fantástica que traz muita satisfação, apesar dos perrengues. Me identifiquei do começo ao fim!

  2. Sensacional o texto, Elisa! Só título já me deixou curioso (palmas paraca referência aos Stones!!). Mas seu texto reflete o sentimento de todo pós-graduando. A gente se mata, reclama (muito!), mas no final não nos vemos fazemos seguindo outro rumo. Já cansei de contar as vezes que fiquei no laboratório até 20, 21, 22h da noite. Cansa, sim, mas a sensação de sair sabendo que terminou tudo é indescritível. Na verdade nem precisamos descrevê-la mesmo, só os outros companheiros a entenderão e para eles não necessitam explicações, eles sabem muito bem do que estamos falando. Parabéns pelo texto! Vem bem para dar um ânimo extra nessa caminhada.

  3. Liana Vila Boas 31.08.13 at 19:31 - Reply

    Nossa, é exatamente desse jeito. Não me imagino fazendo outra coisa, mesmo que seja difícil, que eu ouça algumas barbaridades da minha orientadora, eu gosto do que faço. E a quantidade de conhecimento que estou aprendendo eu sei que não conseguiria de outra forma. Sou mestranda e só me falta um ano, mas um ano passa tão rápido, e eu ainda inventei de casar no meio do processo, loucura em dobro! Mas eu sei que vai valer a pena. E obrigada pelo texto, me deu o ânimo que eu precisava hoje. 😉

  4. Carla Ramos de Paula 31.08.13 at 21:22 - Reply

    Muito legal seu texto Elisa, o segredo é gostar do que se faz!

  5. Giuseppe Potrick Stefani 31.08.13 at 21:55 - Reply

    Caramba, achei que só eu fosse assim! hehehe
    Excelente texto, Elisa!
    Agradeço por mostrar que existem mais pessoas na mesma batalha e buscam algo maior!

  6. Que leitura gostosa, Elisa! É bom demais poder compartilhar as dores e delícias de sermos pós-graduandos com pessoas do Brasil inteiro, com pelejados como eu, como nós, que ralam e se divertem com as pesquisas. Às vezes dá aquele baque: pra que serve tudo isso, qual o sentido disso, vale a pena? Daí a gente senta uns minutinhos pra rascunhar aqueeeele artigo que tá atrasado e o prazo pra revista é daqui dois dias e tudo faz sentido novamente. O segredo está o processo, no manter-se em trânsito, sempre extasiado com as novas (e velhas) possibilidades do mestrado, do possível doutorado, da pesquisa. Acho que é isso (e foi o que tentei trazer no último texto, lá na minha coluna – propaganda gratuita, hehe): é preciso paixão. Toda paixão é meio boba, um tanto louca, mas não dá pra viver sem. Com a Pós-Graduação (em maiúsculas mesmo) não é diferente!

  7. Roberta 31.08.13 at 23:49 - Reply

    Elisa, a mais pura verdade!!!
    Adorei o texto é engraçado e estranho como amamos e odiamos a vida de pós.

  8. Armando Oliveira 31.08.13 at 23:49 - Reply

    Parabéns pelo texto. Vocês não sabem o quanto isso significa pra mim agora, que acabei de passar 12 horas sentado numa cadeira de plástico lendo e escrevendo… Família, namorada, amigos, ninguém nunca vai entender o que é isso.

  9. Elisa, às vezes tenho a sensação de que estar em uma pós-graduação só faz sentido para nós mesmos. Mas, como você bem descreveu, as alegrias dessa época compensam os perrengues pelos quais passamos. Adorei seu texto, é sempre bom constatar que não estamos sozinhos!!

  10. Daniele 01.09.13 at 07:45 - Reply

    Sensacional!! É exatamente assim que nos sentimos… Excelente texto, parabéns!!

  11. Denilson 01.09.13 at 09:33 - Reply

    Só uma coisa a dizer sobre seu texto: Fantástico!!!!!!!

  12. Mariana 01.09.13 at 11:37 - Reply

    Muito legal seu texto Elisa! Nem parece que você é do campo das ciências biológicas!!! Rsrsrs brincadeirinha.. Me identifiquei totalmente, conseguiu traduzir muito bem os sentimentos pós-graduandos!! Parabéns!

  13. Sabrina Souto 01.09.13 at 12:32 - Reply

    Gostei do texto, me identifiquei totalmente… é muito difícil expressar sentimentos em palavras, mas vc disse tudo!

  14. Rodolfo Leandro 01.09.13 at 15:44 - Reply

    Muito o seu texto Elisa!
    Tinha que ser bióloga ^^

  15. Daniel Angrimani 02.09.13 at 14:57 - Reply

    Muito bom Elisa!

    Hoje eu estava precisando ler um texto igual o seu! Parabens!

  16. Paty 03.09.13 at 11:19 - Reply

    Adorei, Elisa. Texto super bem escrito e que em plena tarde lesada de terça feira, me fez voltar ao trabalho. É sacrificado, mas eu gosto. Tô indo.

    P.S.: eu acendo velas, hahaha!

  17. Chris 17.01.14 at 07:17 - Reply

    Inspirador!

  18. Adailton 26.09.15 at 14:59 - Reply

    Elisa, você me fez ver a pós de forma poética, sem sofrimento e angústias. Muito bom seu texto Parabéns

  19. Luciana Farina Almansa 26.09.15 at 15:42 - Reply

    Nossa ameeeeeii o texto, concordo com tudo que está escrito!! Aprendi e ainda aprendo muito com a pós, seja em conhecimento científico ou amadurecimento pessoal!! Meus parabéns pelo texto! 🙂

  20. John Zeferino 04.02.17 at 06:20 - Reply

    Nossa!!!! já andei muito intrigado comigo por pensar que estava capacitado pra enfrentar os desafios da pós. Tudo por causa da maneira como me parecia difícil fazer tudo. ParabénS sim pelo texto Elisa! É bastante encorajador saber que a maré tempestiva da pós é uma luta de muitos. Viva a pós graduação!

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