Autoria científica fraudulenta: causas, consequências e critérios

Nos últimos 30 anos, tenho visto que a comunidade científica, dos mais velhos aos mais novos, critica arduamente autorias fraudulentas, mas elas continuam.

Precisamos não apenas entender o assunto, mas mudar a prática!

O que leva à autoria fraudulenta?
Se lhe disserem que a competição por publicações tem feito com que apareçam autorias fraudulentas, não acredite.

Autoria fraudulenta decorre de desvio moral e ético.

Sob pressão, os desonestos optam pelo caminho mais fácil, que é a fraude.

Na literatura há relatos de artigos com 900 autores (Maddox, Nature 369: 353, 1994).

Nos excessos pode haver fraude, mas também o número não comprova a fraude. Se houver dois autores, um deles pode ser espúrio.

Quais as principais implicações da autoria fraudulenta?
Um autor fraudulento leva em seu currículo uma atividade que lhe foi atribuída de forma ilícita.

Considerando critérios para aprovação em concursos públicos e distribuição de verbas no meio acadêmico brasileiro, tais fraudes lhe rendem prêmios (contratações e aprovações de financiamento).

Como nesse meio acadêmico essas verbas são, geralmente, públicas, indiretamente significa desvio de verba publica.

Só para registrar: conheci um pesquisador brasileiro que, em 5 anos, publicou 64 artigos (todos dele?), dos quais 63 na revista brasileira em que era editor-chefe e 1 numa revista pior que a dele – e era pesquisador PQ 1A pelo CNPq.

CRITÉRIO: O que não garante autoria
a) coletar dados: fazer ciência é construir conhecimento. É uma atividade teórica que pode resultar em tecnologia. Assim, a essência de um artigo acadêmico é sua conclusão. Ela decorre da concepção (objetivo e delineamento), dos resultados e da interpretação que se dá a esse cenário. Vejam que Lamarck e Darwin partiram de dados similares, mas os interpretaram de forma diferente. Portanto, a coleta de dados não é elemento necessário e suficiente para autoria.

b) pertencer ao grupo: cuidado, é formação de quadrilha, mudando de grupo para bando de pesquisa.

c) emprestar material ou equipamentos: materiais e técnicas são meios para se obter resultados; o discurso científico vai além desses meios e dos resultados.

d) realizar análise estatística: essa análise caracteriza uma amostra, ou testa associações (comparando tratamentos ou testando correlações); o autor conclui a partir daí. É o início para o discurso e, portanto, sozinho não garante autoria.

CRITÉRIO: o que garante autoria
Há três participações que, no conjunto, garantem autoria (baseadas em Maddox op. cit.):
a) conceber a pesquisa e/ou as conclusões;
b) concordar com o texto e
c) ser apto a defender a essência do texto perante a comunidade científica. Depois de publicado, não adianta dizer que não viu… Assuma a responsabilidade.

Isso define se o indivíduo pertence ou não ao quadro de autores.

Quanto à sequência de autores, não há padrão nacional ou internacional, embora haja ordenações mais comuns.

Assim, como não é universal, erram os comitês que pontuam em função da posição do autor no rol de autores.

. . .

Texto escrito por Gilson Luiz Volpato, professor adjunto do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu que atua há 25 anos nas áreas de Metodologia, Redação e Publicação Científica e é autor do site www.gilsonvolpato.com.br

By |2018-12-06T01:56:50+00:0023-01-2012|debates, guia, redação científica|39 Comments

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39 Comments

  1. Eduardo 23.01.12 at 10:58 - Reply

    Olá!
    Me apareceu uma dúvida… Como funciona com professores orientadores? Pois eles não necessariamente concordam com os resultados da pesquisa, mas em geral participam da autoria da mesma. Por ele não concordar invalidaria sua co-autoria?

    • Gilson Volpato 23.01.12 at 20:15 - Reply

      Se o orientador não concordar com as conclusões, como pode assinar a autoria? Hoje as boas revistas (por ex., Plos One) deixam o artigo como se fosse num Blog onde as pessoas depositam comentários, a favor ou contra. O problema é que a publicação virou moeda e “o mais importante é publicar”. Isso deve ser repensado, logicamente.

  2. Mario Kurtz Filho 23.01.12 at 13:25 - Reply

    Existe há muito tempo… muito!

  3. Roberto 23.01.12 at 15:33 - Reply

    Que radical, hein! Vai fazer análise de SNP microarray sozinho e vai ver quanto doi não colocar um estatístico entre os autores… Mas por favor…

    • Gilson Volpato 23.01.12 at 20:19 - Reply

      Entendo o problema, mas o melhor é envolver o estatístico na concepção e conclusão do estudo. Imagine se a conclusão do estudo receber algum processo jurídico (digamos, de alguma empresa caso tenha cunho muito aplicado – e isto não é hipotético, pois já conheço casos). O estatístico está também processado por uma parte que ele não pode se responsabilizar (mas é responsável porque assinou o doc). O melhor no caso dessa metodologia que você comenta é pagar a assessoria estatística e não colocá-lo como co-autor.

  4. Letsdecker 23.01.12 at 16:24 - Reply

    Quem comete a autoria fraudulenta é só quem não participou do trabalho ou também quem consentiu em colocar o nome de quem não participou?

    • Gilson Volpato 23.01.12 at 20:20 - Reply

      Acho que é dos dois lados… quem entrou e quem consentiu que entrasse.

  5. Fernanda 23.01.12 at 20:57 - Reply

    e os que o senhor me diz das revistas que somente aceitam artigos com os nomes de certos autores sem levarem em conta a qualidade dos trabalhos?

    • Gilson Volpato 23.01.12 at 21:50 - Reply

      Coisa ruim tem em todo lugar e setor… esse é apenas mais um caso na ciência. Priorizar autor em vez de qualidade é o fim da picada. Há muito amadorismo. Precisamos ser mais fiéis aos preceitos filosóficos do fazer ciência e desviar desse povinho e dessas maluquices!!

  6. Tatiana 20.04.12 at 12:33 - Reply

    Gostei muito do texto. Me fez pensar o porquê eu não sou de colocar nome de pessoas nos artigos que eu faço. 
    Fico pensando se a culpa não é da avaliação da Capes baseada apenas em produção científica. Não sei em outros lugares, mas alguns cursos de mestrado só pagam a inscrição de alunos em congressos se, e somente se, o trabalho tiver o nome de algum professor do curso como autor. Eu me recuso a colocar nome de quem não participou da pesquisa. E já ouvi vários comentários de que deveria fazer isso para não ter de desembolsar o dinheiro que gasto para participar de congressos. Mas, antes tirar do bolso do que aceitar tamanha palhaçada.

    • Daniel Valente 07.05.12 at 13:09 - Reply

      Mas a culpa SÓ É dos processos de avaliação de pesquisadores. Se se avaliasse conteúdo, se fossem levadas em conta outras atividades científicas produtivas que não renderam artigos… não precisaríamos ficar nos preocupando com gerar quantidade, dividindo um estudo em tres, só pra publicar mais.

  7. Magalinunespereira 07.05.12 at 13:15 - Reply

    Uma dúvida!!!

    Uma amiga construiu uma literatura infanto juvenil por orientação de sua orientadora de Mestrado para aplicar um projeto baseado em dados e estatísticas em uma escola pública, deste concluíram o trabalho e foi publicado, anos mais tarde a orientadora publicou a literatura como de sua autoria. Neste caso a orientanda não deveria fazer parte como autora também da literatura se a mesma construiu também a literatura com a orientadora para o projeto? 

    • Selmasb86 07.05.12 at 20:22 - Reply

      Isso é plágio, se a orientadora publicou como dela, sem ao menos citar a orientanda como aquela que fez a pesquisa!

  8. Patricia 07.05.12 at 13:18 - Reply

    Ultimamente ouço mt sobre esse assunto no meu programa de pós. Mas os professores estão sempre relacionando os casos em que, principalmente, ALUNOS não devem fazer parte da autoria de um artigo, se “esquecem” completamente de qndo os próprios professores da instituição NÃO DEVEM fazer parte da autoria do artigo. Por exemplo, o artigo q submeti do meu mestrado não deveria constar (na mina opinião) meu co-orientador, ja q ele nem sabe o q ta escrito no artigo, não leu, não corrigiu, não deu opinião alguma. Mas vai não colocar o nome dele….Outro caso, sou co-autora em um artigo que quando estava para ser submetido foi colocado o nome de um professor recém concursado, só para dar um up no curriculo dele. É certo isso, claro q não, mas como alunos estamos sempre de pés e mãos atadas.

  9. 71syyx_mundo 08.05.12 at 21:41 - Reply

    Já ouvi uma história sobre o diretor de um grande centro de pesquisa só liberar verbas para a pesquisa mediante um acordo de incluir sua filha como um dos autores do artigo. E o pior que ela não era pesquisadora, não pertencia ao centro e mal aparecia por lá. É ultrajante…

  10. kátia valéria almeida 30.06.12 at 13:32 - Reply

    Estou passada com tantas informações que não desconhecia totalmente,  mas com tal profundidade, nem imaginava. Foi de extrema importância os relatos. Acredito que deve existir alguma forma de responsabilizar judicialmente certas fraudes.E não creditar o conteúdo pesquisado ao orientando…Totalmente desmotivador!

  11. Gilvano 16.09.12 at 13:41 - Reply

    Nesse contexto, acho que falta ética em tudo, desde os participantes fraudulentos em trabalhos científicos, como membros de editoras e de concursos públicos (é melhor nem mencionar os demais patamares). Mesmo não adicionando o nome em trabalhos científicos dessa forma (fraudulenta), muitas pessoas que conheço, acabam perdendo na concorrência em concursos públicos para os candidatos fraudulentos, os quais adicionam o nome em trabalhos científicos discaradamente. Em concursos públicos os trabalhos são contabilizados e pontuados sem critério específico. Então nesse caso, o sistema de fraudulência ganha sempre e, os bonzinhos e éticos acabam nem se colocando satisfatoriamente no campo de  trabalho. O que fazer nesse caso se o próprio sistema acaba incentivando esse tipo de prática? Aderir a publicação massal sem ética para poder sobreviver como cientísta ou abandonar a carreira científica? Acredito que o sistema deveria mudar, mas isso será daqui a muitos e muitos anos, e ainda, considerando, se realmente mudar algum dia. A luta é complexa, pois muitos dos grandes pesquisadores que detêm poder, fazem isso discaradamente. Acredito mais na nova geração de cientístas, que é menos engessada.

  12. Helo 23.09.12 at 13:44 - Reply

    Não concordo com o texto… Li as opiniões dos colegas e com elas, concordo… O que o texto cita como critérios que não garantem a autoria são, na minha opinião, relativos… Pelo menos no departamento em que trabalho a maioria dos laboratórios cooperam entre si, com equipamentos, consumíveis, mão de obra para coleta de dados (o que significa ter menos tempo para a própria pesquisa) e os próprios alunos fazem cursos (pagos e MUITO caros, por sinal) pq o pessoal da estatística Universidade não dá conta de atender todo mundo… Alguém não colocaria o nome de um colega numa situação dessas? Não digo colocar nome de quem nem sequer sabe do que se trata… Mas convenhamos, todos que colaboram destas formas (exceto técnicos que são pagos para isso) devem entrar como autores… 

    Mais uma vez, não defendo e nem aprovo que pessoas completamente alheias ao trabalho entrem como autores… 

    Ah, também não concordo com o “conceber a pesquisa e/ou as conclusões”… É muito mais difícil, principalmente num país que não financia a ciência como deveria, colaborar com conclusões…. muito mais…

    • Gilson Volpato 30.03.13 at 21:58 - Reply

      Caro colega, usando seu critério acho que teremos que adequar critérios de autoria pelas dificuldades locais. Acho que não é por aí. O autor necessariamente deve ser responsável pela essência do trabalho (isso é tão óbvio!)… e a essência de um trabalho científico é sua conclusão (o que também é óbvio!). Só estou seguindo o que dita a ciência e dela desdobro para o critério… O restatante temos que resolver de outra forma. Se não estamos aprendendo estatística, temos que aprender. Se não temos técnicos contratados, não podemos usar mão de obra de alunos… enfim, meu raciocínio vai por aí.

  13. Catarina Rafaela 06.03.13 at 17:51 - Reply

    Muito bom pois no meio científico realmente ocorre a formação de quadrilha ou melhor os “bandos de pesquisa”. Só o que é visto, e justamente estes bandos tem várias publicações. E serve também para colaboradores que coletam 2 dados e querem ter o nome no trabalho. Fora a corrupção nas revistas, ja vi mtos trabalhos ruins serem publicados em revistas boas, e mtos trabalhos bons serem recusados. Muito bom mesmo o artigo. Gostei

  14. Daniele 06.03.13 at 19:46 - Reply

    Acabamos sendo “punidos” em concursos pq muitos laboratórios fazem isso. Conheço pessoas que tem 15 publicações no Mestrado. Como ela ajudou tanto em vários trabalhos e ainda fez o dela?? Número de publicação NÃO faz da pessoa um bom pesquisador. Infelizmente as agências e banca de concurso nem sempre veem isso. Ver gente que não faz experimento direito ganhar uma “super bolsa” porque ela tem várias publicações, que duvido que tenha trabalhado tanto, é tão triste quanto.

  15. Lívia 07.03.13 at 09:29 - Reply

    Montei um artigo super trabalhoso para a conclusão de uma disciplina
    do mestrado. O artigo foi para dois professores dessa disciplina
    corrigir: um deles corrigiu muito mal (só mostrava parágrafos curtos ou
    longos demais) e o outro enrolou mais de um mês e devolveu sem avaliar
    nada. Daí 2 bolsistas do meu grupo de pesquisa me ajudaram a
    complementar a introdução e a discussão, pesquisando através de base de
    dados… Quando publiquei o artigo, coloquei o nome dos 2 professores e
    das 2 bolsistas, então um professor veio reclamar para mim que as
    bolsistas não poderiam ter entrado pois era anti-ético. Na minha opinião
    as bolsistas participaram muito mais na construção do artigo que os 2
    professores, que apenas ministraram a disciplina. Não acho que ministrar
    a disciplina que terá um artigo ao final seja pré-requisito para fazer
    parte da autoria do mesmo, eles já recebem salário para ministrar a
    disciplina e não me orientaram em minhas dúvidas na construção do artigo científico. Isso acontece direto nas disciplinas de pós-gradução!
    Prof. Volpato, o senhor que é um grande estudioso do assunto, qual sua
    opinião nesses casos? Sinceramente não sei se minha opinião está
    correta, pois sou nova no meio acadêmico!

  16. Alberto 27.05.13 at 13:59 - Reply

    Eu concordo totalmente com o texto. Já fui co-autor de vários artigos, mas mesmo quando fui chamado para fazer análise estatística após a coleta, fazia questão de participar de todo o processo a partir daí, contribuindo com o texto, com a discussão e com as conclusões. Por outro lado, sofro de outro mal: o do orientador. Segundo meu orientador tudo o que faço é “dentro do laboratório dele” e que se não fosse ele eu “não teria ferramentas para trabalhar”, por isso tenho de colocar o nome dele nos meus trabalhos mesmo que ele sequer se dê ao trabalho de ler. Essa lógica é bem complicada e há uma linha muito tênue nessa discussão. Não sou contra o produtivismo, mas também não sou a favor da pressão sobre o pesquisador.

  17. Eduardo Oliveira de Souza 06.02.14 at 13:54 - Reply

    Concordo! O sistema tem cada vez mais cobrado um número maior de publicações. Por outro lado, autoria fraudulenta é desvio de caráter. Só uma ressalva, quem faz a análise estatística, deve ser considerado um colaborador sim. Pois, se a análise foi decidida a priori e não rodando várias análises após o término do trabalho para identificar o valor de p significante. Esse autor, em tese, participou da concepção do projeto para identificar qual melhor análise estatística para àquele design. É a minha opinião.

  18. Taisa 06.02.14 at 14:34 - Reply

    Meu orientador é extremamente ético quanto a isso. Contudo, um professor da pós que tem certas influências políticas exige que seus alunos publiquem um artigo qualquer com seu nome em determinados congressos, para ser aprovado na tal disciplina. Detalhe, ele nem ministra a disciplina, enrola em sala de aula uns 3, 4 dias em um semestre todo e só. Este é bolsista produtividade nas custas dos alunos que não orienta.

  19. Julia Rafalski 06.02.14 at 14:54 - Reply

    Muito boa a discussão. Aprendi desde cedo, na IC, que quem não escreve não tem o nome no artigo e que dado é de quem escreve e não de quem coleta. Acho que usando esses dois princípios dá pra evitar muitos problemas.
    O que acho ruim é o imperativo de incluir orientadores nos trabalhos. Não tenho nenhum problema com o meu, mas vários colegas sofrem com orientadores que mal ajudam e ainda atrapalham, falando que vão ler o trabalho e enrolando meses, o que acaba por dificultar e delongar ainda mais o processo de publicação.

  20. Paulo 06.02.14 at 17:58 - Reply

    Olá. Achei muito bom o texto e as colocações. Sou aluno de mestrado no Brasil e tive oportunidade de estar realizando parte de minhas pesquisas no exterior. Em alguns lugares “aqui fora” é bem interessante como eles discutem autoria, pois eles já planejam o autor antes mesmo de começar as avaliações. Acho isso legal pois já fica pré estabelecido além de publicar em cima de uma hipótese criada, e não avaliar 1000 diferentes medidas e através disso ir colocando autores aleatórios por fazer parte do grupo ou ter ajudado em uma mísera hora em sua avaliação. Isso não é somente onde estou. Tenho contato com outros pesquisadores que pensam idem em outros países como Canadá e Estados Unidos além de conhecer alguns pesquisadores no Brasil que também julgam autor como aquele que divide a obrigação intelectual e discute de fato o seu trabalho para enriquecimento científico. Me perdoe a expressão, mas dá um certo “tesão ” de saber que está publicado algo que você pensou, leu e discutiu, do que simplesmente ver seu nome num papel e nem saber do que se trata!

  21. Adalberto Césari 06.02.14 at 23:57 - Reply

    E temos um famoso “campeão de produção científica” que usa do artifício: “só usa o equipamento do meu laboratório se colocar meu nome no artigo.

  22. Juliana 07.02.14 at 11:56 - Reply

    Essa discussão é muito interessante, pois já vi uma palestra sobre o tema e ainda não se tem um consenso. Na minha opinião concordo com a maioria dos tópicos presentados, mas com relação a coleta de dados acho que “cada caso é um caso”. Não deixa de ser uma contribuição, que juntando-se os dados de quem coletou com outros que foram coletados por outros e que ao fim dará em um resultado, olhando por esse aspecto, todos contribuíram. Mas, como disse “cada caso é um caso” se seu estudo foi realizado por um ano e alguém te ajudou nas coletas por uma semana, quinze dias não acho que mereça entrar como co-autor. A não ser que a coleta tenha um dado inédito e que apenas quem coletou tenha presenciado (conforme o caso). Com relação ao uso de materiais também acredito que o uso em si não garante a co-autoria. Agora se o dono do material fizer muita questão, o melhor é conversar para se chegar a uma concordância ou então alterar o projeto do estudo para que o material não seja necessário e assim não ter que colocar o nome de alguém que não merece.

  23. Gabriela 07.02.14 at 18:34 - Reply

    Tenho um caso interessante sobre esse aspecto de autoria e gostaria muito da orientação do Dr. Volpato:

    – E quando você defende seu trabalho (dissertação/tese) e o combinado entre todos do grupo é que os resultados não sejam publicados sozinhos, e sim, juntos com os dados de outros do grupo num artigo mais relevante (na questão científica, por contextualizar os achados ou invés da prática de “salami science”, e sendo assim, na questão da importância da revista logicamente)
    – Ai, muito tempo depois, quando todos do grupo estão com seus resultados prontos e o artigo pode começar a ser escrito, você e os demais mandam seus gráficos para os pesquisadores-chave que vão juntá-los para a interpretação global (já que a individual cada aluno já fez a sua)
    – Mais um tempo depois, você vai na reunião em que serão apresentados todos os dados na sequência do paper e que a discussão será feita (quase apresentada, já que os que montaram a apresentação já analisaram tal contextualização). Nesta reunião você vê seus dados na contextualização do artigo e manda a parte escrita relacionada aos seus materiais e métodos.
    – Ai, uns meses depois, você é NOTIFICADO que o artigo foi submetido e que seus dados foram excluídos do mesmo por não se fazerem mais necessários pro artigo que estava muito carregado de informações e autores.

    O que se faz neste caso? Você é solicitado a não publicar seus dados separadamente há anos atrás para que eles fizessem parte de um trabalho mais completo, você espera, e na véspera da publicação é retirado os dados e a autoria?? Isto é procedimento de praxe na ciência? Segurar um trabalho para melhorar o impacto da publicação, mas na hora de “enxugar” o artigo tirar os dados E o autor do mesmo? Veja bem, os dados já eram conhecidos e foram julgados como necessários até então. Os dados estavam inseridos na sequência do trabalho, você mandou sua parte escrita dos materiais e métodos (que foi a única solicitação para a redação que lhe foi feita), você não recebe a cópia do manuscrito para revisão em nenhum momento, no decorrer de meses nada lhe é solicitado, e o que você recebe é uma notificação de exclusão do artigo e, quase uma autorização para publica-los separadamente (vale ressaltar: publicar separadamente ANOS depois do que você provavelmente teria publicado se não fosse solicitado aguardar para fazer parte do artigo do qual acabou de ser excluído). Há alguma diretriz de como proceder num caso como esse? É “legal”? No caso de não haver diálogo que reverta esta decisão dos pesquisadores-chave não existe nenhuma intervenção acadêmica?

    Agradeceria muito uma orientação à respeito de casos desta natureza

  24. Anderson 09.02.14 at 18:19 - Reply

    Infelizmente o primeiro autor carrega nas costas varias pessoas que pouco contribuem para elaboração de um artigo. Pessoas que com certeza não seriam aptos a defendê-lo caso fosse indagados. Quantas vezes fomos prejudicados em concursos públicos ou seleção de mestrado/doutorado por pessoas que adotam essa máfia de co-autores.

  25. Renata 11.02.14 at 16:06 - Reply

    Gostei muito desse tema. Infelizmente esse é um dos motivos que mais me desmotivou a querer seguir área acadêmica (por sorte passei em um concurso e logo abandono esse barco).

    Sabe aquele sentimento de você batalhar, passar finais de semana inteiros no laboratório para produzir um artigo em 1 ano (já que sua área é bem explorada) e descobre que alguns colegas nem fazem isso e produzem diversos artigos por inventaram dados ou ainda por fazerem a famosa “multiplicação de artigos” (pegar um trabalho e desmembrá-lo em 3 ou 4) ?!
    Pois é, não é dos mais agradáveis.

    Casos assim são normais onde estudo. Pode parecer anti-ético, mas um colega é bastante conhecido por fazer a famosa “multiplicação de artigos” mudando pegando um dado aqui outro ali e modificando o nome dos trabalhos, todavia como o orientador dele tem calibre quase sempre esses artigos são aceitos.

    O grande problema ao meu ver, está na forma pela qual é feita a avaliação para um cargo de docente. Enquanto não mudarmos esse conceito de que quantidade é melhor do que qualidade, estaremos virando as costas para diversas fraudes.

    • Marcos 23.09.16 at 00:18 - Reply

      Se tivesse abandonado mesmo não estaria aqui. Não existe isso. Muito Juiz Federal tem Doutorado também. São mundos diferentes que se complementam.

  26. Lu de Souza 19.07.14 at 15:45 - Reply

    Nossa, mas está bem diferente do que acontece na “vida real” acadêmica

  27. lUCY 20.04.15 at 01:11 - Reply

    Orientei um alunos em um projeto de pesquisa, que resultou em um artigo. O aluno mandou o referido artigo para um determinado período, mas sem constar meu nome. Participei de todas as etapas da pesquisa. Nesse caso, como devo proceder?

    Att, Lucy

  28. Lúcio 15.03.16 at 16:24 - Reply

    “Assim, como não é universal, erram os comitês que pontuam em função da posição do autor no rol de autores”.

    Perfeito Professor. Acho um absurdo o Comitê de Agrárias priorizar os 2 primeiros autores quando sabemos que na maior parte das outras áreas o primeiro e o último (correspondente) é que são os mais importantes.

  29. Leandro 17.09.16 at 23:56 - Reply

    Foi muito bom ler sobre isso. Agora tenho certeza que isso é antiético. Talvez bata de frente com pessoas boas, mas não quero fazer esse jogo antiético na minha produção científica.

  30. Marcos 23.09.16 at 00:15 - Reply

    Isso é totalmente contrário o que ocorre na prática dos Programas de Pós-Graduação strictu sensu.

    Os professores nos exigem artigos em co-autoria. Deveriam então investigar eles, não os alunos.

    Vejam quem são aprovados nos Doutorados? Quem? Vamos olhar o currículo lattes da pessoa e estão lá artigos escritos com a futura orientadora. Tudo jogo de cartas marcadas, só querem pegar não os competentes mas quem vão engordar o currículo deles mesmos professores.

    MESTRADO E DOUTORADO É JOGO DE CARTAS MARCADAS!!!!!

    As entrevistas servem para escolherem quem eles querem. Um bando de canalhas esses professores de Universidades Federais que se acham o dono da Universidade, como se nunca fossem se aposentar um dia.

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