Guia resumido de redação científica

Apresentamos aqui o guia definitivo (e resumido) escrito por Mark L. Savickas* para auxiliar na redação científica de artigos, monografias e demais trabalhos acadêmicos. Leitura obrigatória para pós-graduandos e interessados em geral.

ORIENTAÇÕES GERAIS
– Escreva para não-especialistas.
– Escreva de forma clara e concisa.
– Selecione uma revista apropriada.
– Escreva para uma revista específica, usando outros artigos publicados como modelo.
– Planeje escrever pelo menos cinco rascunhos.
– Peça a um colega para revisar a penúltima versão.

Erros comuns
– O trabalho não reflete o estado da arte na área.
– A contribuição é de pequena importância.
– O trabalho é prematuro e mais trabalho de investigação ainda é necessário.
– O trabalho replica pesquisa anterior.
– O trabalho é parte de um todo (“salame science”).
– O trabalho deveria ser submetido a uma revista menos exigente.

I. INTRODUÇÃO
Finalidade:
– Demonstrar a necessidade do artigo.
– Mostrar que ele é importante e relevante para a área.
– Prover descrição sucinta de pesquisas anteriores.
– Descrever claramente os objetivos do estudo.
– Explicitar as origens das hipóteses.
– Descrever as hipóteses ou perguntas da pesquisa a serem respondidas.

Estrutura
A. Antecedentes do problema (ou tese).
B. Descrição do problema (ou antítese).
C. Resolução do problema (ou síntese).
1. Finalidades do estudo.
2. Hipóteses ou perguntas da pesquisa.

Erros comuns
– Orientação mais empírica que teórica.
– Hipóteses descritas em tempo futuro:
– Introdução muito longa, incluindo material que poderia ser melhor utilizado na discussão.
– Inclusão de material estranho ou tangencial.
– Detalhes excessivos na descrição de estudos prévios.
– “Reinvenção da roda”, especialmente na primeira sentença ou parágrafo.
– Omissão de estudos diretamente relevantes.
– Inclusão dos resumos dos resultados.
– Terminologia confusa.
– Primeira sentença “O objetivo deste estudo é…” (muito primário).
– Citações incorretas.

II. MÉTODOS
Finalidade
– Possibilitar ao leitor avaliar o delineamento da pesquisa.
– Descrever os materiais e os sujeitos (especialmente a seleção).
– Descrever o tamanho da amostra e como foi determinada.
– Definir operacionalmente as variáveis das hipóteses.
– Definir procedimentos
– Prover testes de hipóteses adequados.
– Definir análises estatísticas (considerar a proporção de erros para análises múltiplas).
– Informar sobre questões éticas; consentimento.
– Selecionar métodos adequados a fim de permitir a duplicação do trabalho por outros.

Estrutura
A. Medição das variáveis
1. Explicitar os princípios para a seleção das medidas.
2. A medição das variáveis deriva das hipóteses?
– descrição dos instrumentos ou equipamentos,
– dados empíricos dos instrumentos: válidos e confiáveis,
– conveniência para os participantes,
– adequação da tradução,
– se o instrumento é exclusivo para o estudo, relatar evidências que o sustente.
B. Participantes
1. Seleção apropriada e representativa para os propósitos do estudo.
2. Seleção: como, onde os sujeitos foram selecionados &– randomicamente, seleção intencional, grupos inteiros, etc.? Qual é o número da amostra?
3. Características: variáveis demográficas (idade, grau de instrução, raça, sexo, residência rural ou urbana, etc.); dados psicométricos (inteligência, etc.).
4. Comparação com os grupos de referências: normas, razões ou proporções básicas.
5. Explicitação de qualquer comportamento tendencioso dos participantes (voluntários, não-respondentes).
C. Coleta de dados
1. Explicar como o consentimento foi obtido e os participantes selecionados.
2. Descrever em detalhes como os dados foram obtidos (explicar a administração de testes).
3. Indicar como os dados foram comparados para a análise (se relevante).
4. Explicar como os participantes foram interrogados.
D. Delineamento e Análises
1. Descrever ou mostrar graficamente o delineamento do estudo.
2. Apresentar os princípios das análises estatísticas conduzidas.

Erros Comuns
– Na interpretação dos resultados, não aceitar e nem rejeitar hipóteses.
– Informação inadequada para avaliação ou replicação.
– Descrições detalhadas de métodos padronizados e publicados.
– Falha na explicação de análises estatísticas não usuais.
– Participantes heterogêneos demais.
– Falha para explicar o escore dos instrumentos.
– Medidas não validadas; confiabilidade fraca ou desconhecida.

III. RESULTADOS
Finalidade
– Prover descrições claras e organizadas de todos os achados: significativos e não-significativos, positivos e negativos.
– Responder a todas as questões da pesquisa formuladas.
– Ilustrar dados complexos com tabelas e figuras.
– Tabelas: quando valores numéricos específicos são importantes.
– Figuras: quando comparações de valores múltiplos são importantes.

Estrutura
A. Assunções estatísticas.
B. Diferenças de gênero, raciais e étnicas.
C. Estatísticas descritivas (médias, desvio padrão e correlações)
D. Estatísticas inferenciais:
– O Tamanho da amostra é adequado?
– Relatar teste de significância.
– Relatar significância e o impacto dos achados.
– Considerar restrição da cobertura em estudos de correlação.
E. Análises adicionais (usualmente post hoc).

Erros Comuns
– Tabelas e Figuras complexas, incompreensíveis.
– Repetição dos dados no texto, nas tabelas e nas figuras.
– Falha no seguimento do mesmo formato da introdução e do método.
– Falha no provimento dos dados prometidos no método.
– Análise estatística inadequada ou inapropriada
– Inclusão de material mais apropriado para as legendas de figuras e tabelas.
– Confiança nas figuras ou tabelas para prover conclusões.

IV. DISCUSSÃO
Finalidade
– Apresentar e interpretar conclusões.
– Enfatizar achados importantes.
– Comparar e contrastar com trabalhos anteriores relacionados.

Estrutura
A. Conclusões: relacionar resultados com as hipóteses.
B. Interpretações: esperadas versus alternativas.
C. Implicações:
1. teóricas
2. para a pesquisa
3. para a prática
D. Limitações do estudo: aproximação com o estudo ideal.
– Confiança estimada das conclusões.
– Explicitação de possíveis restrições para as conclusões.
– Identificação de procedimentos metodológicos pertinentes aos achados.
E. Recomendações para pesquisas futuras.

Erros Comuns
– Repetição da introdução.
– Repetição dos resultados.
– Discussão não baseada nos propósitos do estudo.
– Falha no esclarecimento das implicações teóricas e práticas dos achados.
– Discussão não baseada nos resultados.
– Hipóteses não discutidas explicitamente.
– Tendência não-significativa de promover os achados.
– Apresentação de novos dados.
– Repetição da revisão da literatura.
– Especulações não fundamentadas.
– Recomendações não baseadas nos resultados.
– Sumário provido quando o resumo já foi apresentado.
– Declarações inaceitáveis, não convincentes ou não fundamentadas.

RESUMO
Finalidade
– Prover um breve resumo dos: propósitos, hipóteses ou problemas, delineamento da pesquisa, principais observações, e conclusões.

Erros Comuns
– O resumo conter uma introdução que é parte da introdução.
– Resumo longo e detalhado demais; dados e análises excessivos.

REFERÊNCIAS
Finalidade
– Prover apoio a declarações que o requeiram.
– Possibilitar a avaliação dos métodos e das análises estatísticas.
– Prover ao leitor referências mais pertinentes sobre o mesmo tópico.

Problemas Comuns
– Muitas, e especialmente múltiplas referências para apoiar afirmações únicas e simples.
– Uso de referências secundárias.
– Referências desatualizadas.
– Referências a procedimentos padronizados.
– Erros nos nomes dos autores.
– Observações, comunicações pessoais e palestras não publicadas.
– Referências a trabalhos submetidos à publicação.
– Fontes não confiáveis.
– Linguagens diferentes.

TÍTULO
– Finalidade
– Permitir ao leitor julgar os conteúdos e a natureza geral do artigo.
– Incluir palavras-chave objetivando a indexação.

Erros Comuns
– Longo demais (assemelha-se a um “breve resumo”).
– Esperto, cômico e “engraçadinho”.
– Questão retórica.
– Sentença completa.

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*Roteiro escrito por Mark L. Savickas (Northeastern Ohio Universities College of Medicine, Ohio, EUA)

Fonte: Revista Brasileira de Orientação Profissional

By |2018-12-06T01:56:50+00:0025-01-2012|guia, redação científica|9 Comments

About the Author:

Criador e editor de conteúdo do blog, é portador de uma imaginação hiperativa e de uma necessidade patológica de estar sempre bem-humorado. Acredita que a Pós-Graduação, como tudo na vida, pode ser interessante, divertida e descomplicada.

9 Comments

  1. Fábio C. J. Maués 25.01.12 at 10:07 - Reply

    Muito bom o texto. Ajuda bastante para colocar a cabeça no lugar e escrever bem 🙂

  2. Aline Oliv 02.02.12 at 17:05 - Reply

    Eu gostaria de poder imprimir, como faço?
    Adoro estas dicas!

    • posgraduando 02.02.12 at 17:51 - Reply

      Segure as teclas “Crtl + P” ou vá em “Arquivo > Imprimir” em seu navegador. 😉
      Abraços!

      • Mara Rúbia 13.06.12 at 13:53 - Reply

        Sempre faço isso.
        Obrigada.  :)))

  3. Mara Rúbia 13.06.12 at 13:51 - Reply

    Olá, gostaria de saber se mesmo não sendo mestrandos ou doutorandos podemos escrever artigos que tenham validade para um Currículo Lattes, quando do ingresso na pós graduação stricto sensu. E onde poderia publicar estes artigos. 

  4. Mara Rúbia 13.06.12 at 13:53 - Reply

    Saudações!
    Por favor, gostaria de saber se, mesmo não sendo ainda mestranda, poderia já produzir artigos que tenham validade para o meu Currículo Lattes e onde poderia publicá-los.Agradeço a colaboração.Abraços.

    P.S.: Adoro esse blog! Parabéns! 😉

  5. dúvida 17.10.12 at 16:31 - Reply

    Alguém já usou encurtadores de URL em referência a documentos eletrônicos. Exemplo:

    TAL, Fulano de. “Blablablá: blábláblá” in Revista XYZ, v. X, nº Y, janeiro de 2000. Disponível em , acesso em outubro de 2012

    Ao invés de usar o URL por extenso (que normalmente deixa a seção de referências bibliográficas dos artigos muito feia e desformatada), poderíamos usar encurtadores, como o bitly?

  6. Rita 22.02.14 at 17:47 - Reply

    Favoritei!

  7. Sandra 10.02.16 at 15:09 - Reply

    ótimas dicas! Estou escrevendo minha dissertação e estas dicas foram muito úteis! Obrigada!

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