Como é a estrutura de um PhD norte-americano?

Um Doutorado fora do Brasil pode ter as mais variadas estruturas. A escola norte-americana “geralmente” tem PhDs mais longos, com diversas disciplinas, e com uma duração média de 5 anos. A escola europeia, por outro lado, muitas vezes apresenta um sistema mais baseado em pesquisa, com 3 anos de duração, com poucas (ou nenhuma) disciplinas—tudo isso, é claro, varia de acordo com a área e a instituição. Para compreender por que essas diferenças existem, precisaríamos entender a história acadêmica como um todo, já que o PhD representa a última etapa do sistema educacional.

A descrição que dou abaixo é baseada no programa de que faço parte (Linguística, McGill University), assim como em outros programas que conheço por aqui (UMass, MIT, Harvard, UConn, UCLA, UPenn etc.): a estrutura “geral” costuma se manter. Não é preciso dizer que diferentes áreas variam. Portanto, leia este post como um “exemplo”, que tenta ser ao menos um pouco representativo do “todo”.

Seleção

Diferentemente de universidades europeias (em sua maioria), muitos dos PhDs por aqui não exigem um projeto sólido de pesquisa antes do início do programa. Você deve, sim, ter uma noção de que tipo de pesquisa deseja seguir, mas projetos de pesquisa geralmente ficam reservados para o final do primeiro ano—caso você seja aceito ao programa. Você precisa, é claro, de um writing sample, em que sua pesquisa (até o momento) e sua escrita acadêmica serão avaliadas; cartas de recomendação, carta de propósitos, um GPA alto na Graduação e no Mestrado, GRE, TOEFL, entre outras coisas. O GPA (Grade Point Average) é a média de todas as suas notas, transformadas para uma escala que quase sempre vai até 4. Bons programas exigirão um GPA superior a 3.3/4.0.

Ano 1

6-8 disciplinas. Geralmente, são disciplinas “horizontais” na área que você estuda. Quase sempre, cada disciplina exigirá diversos trabalhos de análise e artigos finais. É durante este ano que você começa a pensar em tópicos de pesquisa para o seu primeiro artigo de avaliação (veja abaixo).

Ano 2

Neste ano, você geralmente faz mais algumas disciplinas e trabalha no seu primeiro (de dois) artigo de pesquisa. Ele é chamado de Evaluation paper, ou Generals paper (depende da universidade). Trata-se de um artigo original, que costuma ser mais longo do que um artigo tradicional. Seria, em termos, equivalente a uma dissertação de Mestrado (quem entra no programa de Mestrado encerra com esse paper, comumente chamado de Thesis). Idealmente, você apresentará essa pesquisa em congressos e, talvez, conseguirá publicá-la em algum journal. Seu artigo é aprovado e, então, você o defende para uma banca interna. Em algumas universidades, neste ano você também começa a ser assistente de professor (TA), e passa a dar aulas, corrigir trabalhos, ter office hours para tirar dúvidas de graduandos etc. É de costume ser TA em uma área relacionada à sua especialidade. Em alguns casos, o pacote de bolsa de estudos que se ganha exige ser TA por pelo menos 4 disciplinas, mas é claro que isso varia.

Ano 3

Aqui você provavelmente já não tem mais disciplinas para fazer—mas geralmente assiste a algumas ou faz parte de grupos de estudo/seminários. Você começa o seu segundo Evaluation/Generals paper, como no Ano 2 acima (mas neste segundo artigo você pode ter menos tempo). Novamente, espera-se que você faça uma pesquisa original e de peso, que seja apresentável em congressos tradicionais. Este artigo precisa ser em uma subárea diferente da contemplada no seu primeiro artigo. Idealmente, sua tese de PhD (dissertation) será relacionada com pelo menos um de seus artigos. Isso não apenas faz sentido (porque mostra que você dá sequência a suas pesquisas), mas também facilita a sua vida, é claro. Neste ano, você geralmente continua sendo TA. Quando você tiver defendido seu segundo paper, você propõe um projeto de tese, o defende e, se aprovado, muda seu status para PhD Candidate ou ABD (All But Dissertation). Ou seja: falta “apenas” escrever sua tese agora.

Anos 4 e 5 (…)

Reservados para a produção da tese. Você talvez possa ser Lecturer, ou seja, ser professor integral de uma disciplina (durante as férias, por exemplo). É um passo importante para o seu currículo, sem dúvida. Você também continua sendo TA, e espera-se que você participe ativamente de grupos de discussão, colóquios, congressos etc.

(Embora a duração oficial do PhD por aqui seja de 5 anos, é bastante comum levar mais tempo.)

By |2018-12-06T01:56:21+00:0016-06-2014|guia|8 Comments

About the Author:

Bacharel em Letras (UFRGS) e Mestre em Linguística (UFRGS). Imigrou para o Canadá em 2012, onde atualmente faz seu PhD em Linguística (McGill University). No Brasil, foi professor de língua inglesa por 10 anos e Tradutor Juramentado.

8 Comments

  1. Rafael 16.06.14 at 10:59 - Reply

    Muito bom o texto, dá pra ter uma ideia do alto nível de cobrança nos programas norte americanos

  2. Rachel Mourao 16.06.14 at 17:01 - Reply

    Dureza eh minha melhor definicao

  3. muito bom! tirou varias dúvidas.

  4. Tireless 23.07.14 at 10:46 - Reply

    Muito bom o texto
    Mas ficou entendido que o tempo de 5 anos é de M.Sc. + Ph.D., certo?
    Ou seja, na prática, ainda perdemos muito tempo com o mestrado. Deveria ser ou o último ciclo da graduação (Europa) ou o primeiro do doutorado.(USA).
    Demoramos (um bacharel), 10 anos para formar um doutor!

    • Guilherme D. Garcia 07.08.14 at 12:04 - Reply

      A questão de o PhD ter um Mestrado “incluído” no programa é um pouco curiosa (e não muito clara, na verdade). Por exemplo, candidatos ao PhD que venham de outros países precisam ter um Mestrado, e esse requisito se aplica a quase todos os países. Por outro lado, duas coisas dão a entender que o programa oficialmente possui um “Mestrado”:

      1. quem vem fazer Mestrado faz os primeiros dois anos do programa do PhD: quase as mesmas disciplinas e obrigrações;
      2. se você entrou no PhD e foi considerado “não apto” após o seu primeiro Evaluation Paper, eles pedem para que você saia do programa; neste caso, você sai com um Mestrado. MAS se você decidir voltar ao programa (ou entrar em outro PhD), você *não* poderá “pular” esses dois primeiros anos.

      Ou seja: o PhD seria, sim, equivalente a um Mestrado e um Doutorado europeu, mas com algumas características específicas que o tornam um “pacote fechado”, por assim dizer.

  5. Aguinaldo Pereira 21.09.14 at 18:05 - Reply

    Olá, legal a matéria. Gostaria de saber se vc ou alguém do blog sabe dizer como funciona os programas para doutorado sanduíche nos EUA. Enviei um e-mail para o departamento de Linguistica da Georgetown, mas eles disseram que não aceitam alunos nessa categoria, ou seja, exchange program.

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