• A liberdade científica e as ciências que não são tão divulgadas

A liberdade científica e as ciências que não são tão divulgadas

Se você não vive embaixo de uma pedra, você provavelmente presenciou o fenômeno de compartilhamentos de um trabalho apresentado na Jornada Nacional de Iniciação Científica da 65ª Reunião da Sociedade Brasileira de Progresso à Ciência, que aconteceu em Recife de 21 a 26 de Julho desse ano. Caso, você esteja ainda sem saber do que eu estou falando,trata-se do trabalho intitulado “Grifinória, Lufa-Lufa, Corvinal e Sonserina: uma análise da estrutura social em Hogwarts na obra Harry Potter e a Pedra Filosofal” de autoria de um estudante de letras que-não-deve-ser-nomeado.

Incessantemente compartilhado, esse trabalho veio acompanhado de piadas, trocadilhos e indignações devido à sua “irrelevância científica”. As críticas surgiram de todas as áreas, mas a predominância parecia ser aqueles familiarizados com as ciências biológicas e da saúde. Assim, comecei a refletir sobre como pensamos em ciência e como a crítica sem conhecimento de causa por de parecer um tanto quanto ridícula.

Realmente, nós não estamos acostumados em pensar na ciência como um espectro amplo que engloba todas as áreas de atuação. Quando pensamos em ciência, imaginamos, ainda, aquele cientista trancado em um laboratório testando x com y e y com z; mas esquecemos que a ciência vai além de descobrir um novo medicamento ou como é o comportamento evolutivo de animais, por exemplo.

Não percebemos nossa ignorância no sentido real da palavra, de simplesmente não conhecermos como as outras áreas de conhecimento trabalham. E isso não é nossa culpa, isso é resultado de uma evolução cultural em que a pesquisa reconhecida é aquela quantificada que “muda o curso da história”, no entanto, esquecemos o quanto o contexto histórico dita as prioridades científicas.

Isso pode parecer um tanto quanto confuso, mas vamos pensar no mundo de hoje e o quanto a cultura pop influencia nossa vida. Será que é tão absurdo um estudante de letras pesquisar a estrutura social de um dos livros mais famosos do mundo? Ou será que é uma questão cultural de que não estamos acostumados a pensar em ciência como um assunto global que incorpora, também, a linguística e a literatura?

Talvez, seja a hora de refletirmos em como a pesquisa que estamos desenvolvendo se difere em relevância científica na área que atuamos. Será que a minha pesquisa é mais relevante que a pesquisa do estudante que-não-deve-ser-nomeado no meu campo de estudo? Será que os resultados da minha pesquisa são mais impactantes na realidade científica que estou inserida do que os resultados da pesquisa dele na realidade que ele está inserido?

Esses questionamentos são necessários, de vez em quando, para nos libertarmos do preconceito e da discriminação científica. Afinal, mais importante do que desenvolver a pesquisa e encontrar resultados relevantes é disseminá-la. Além da retroalimentação científica (principalmente do currículo Lattes) por meio de artigos, você dá retorno efetivo à nossa sociedade?
E caso vocês tenham ficados curiosos sobre o trabalho daquele-que-não-deve-ser-nomeado, ressalto alguns resultados e conclusões emersos da pesquisa: presença preconceito e discriminação relacionados à classe social, raça e cultura, e a utilização da obra como um protesto devido à maneira como a autora constrói a história.

Texto escrito por Renata de Moura Bubadué, aluna do curso de mestrado da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro

By |2018-12-06T01:56:36+00:0017-08-2013|debates|9 Comments

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9 Comments

  1. Raphael Di Carlo 17.08.13 at 16:47 - Reply

    Não consigo encontrar o trabalho para baixar. Vocês poderiam divulgar o link?

  2. Gabriel Piazentin 17.08.13 at 16:52 - Reply

    O que mais tem é gente de exatas que profundamente tira sarro de gente de humanas como se ele mesmo fosse o próximo a mudar o mundo. Batem na tecla de que “errar é Humanas”. Não sei se isso é no mundo todo, ou se é mais aqui que isso acontece, mas quem estuda humanidades (eu mesmo acabei de me graduar em linguística) é constantemente alvo de perguntas do tipo “tá, mas… pra que serve isso que você estuda?”. Isso acaba com o dia da gente. Mas não é culpa de quem simplesmente não sabe, mesmo grandes empresas não veem utilidade alguma das humanidades. Tem uma feira todo ano na Unicamp atrás de novos “talentos”, mas só se você for de exatas. Se disser que é de humanas, te ignoram como se você não prestasse (talvez não prestasse pro que eles querem, mas oras, estamos na Unicamp e não se vê valorização alguma dos cursos de humanidades).

    Enfim, é difícil nadar contra a maré. Afinal, nossas pesquisas não servem para nada mesmo…

  3. Paulo Noboru 19.08.13 at 05:49 - Reply

    Adorei ver uma postagem falando disso. Estou no último semestre de Letras da Puc-Campinas. Terminei minha pesquisa de IC e pretendo fazer mestrado. Contudo, ao ter meu relatório de IC pronto, questionei se aqueles dados, as conclusões que eu estava apresentando, iriam chegar a alguém além daquele curioso que fosse ler o artigo baseado no trabalho. Parti em busca de blogs ou páginas da internet/Facebook, as quais teriam como objetivo disseminar conhecimento da área da Linguística Aplicada. Não encontrei sequer uma página. Entretanto, o número de blogs falando sobre as ciências exatas é gigante. Concordo quando diz que a nossa cultura atual dá uma valor gigante às exatas (não desmerecendo estas ciências) e esquecem dos outros campos do saber.

  4. Thais Kneodler 20.08.13 at 13:28 - Reply

    Aee Renata! Arrebentou!
    Adorei o texto !
    Disponibiliza o artigo pra gente?
    bjo

  5. Hemerson 21.08.13 at 13:02 - Reply

    Ótima postagem! Fiz Licenciatura em Química e, apesar da força que as Exatas tem, considero que o curso é muito mais de Humanas. Talvez isso aconteça em função das escolhas que fiz e que me levam a passar pelo mesmo tipo de problema trazido aqui: trabalho com História da Química, pesquisei como a Alquimia emerge de forma confusa e deturpada em obras como Harry Potter e em outras formas de mídia, fiz pontes com a Filosofia da Ciência e com a Historiografia, mas ainda assim houve quem não visse o trabalho com bons olhos e uma enorme carga de preconceito, fiquei conhecido como “o menino do Harry Potter”. Embora poucos vejam relevância na pesquisa, foi a partir dela que tive a ideia que me permitiu ingressar no mestrado. Nem todos vão enxergar as potencialidades que nós enxergamos, só podemos esperar que, eventualmente, as cabecinhas tornem-se mais abertas, que o pensamento deixe de ser tão estreito.

  6. rosaura nunes costa 08.09.13 at 10:15 - Reply

    Atualmente se ouve demais esta frase: “pensar fora da caixa”. As Ciências Exatas, Humanas e Biológicas se situam em compartimentos estanques, em nichos. A obra faz justamente esta analogia. Então, chega a ser engraçado um representante de Exatas ou Biológicas discursar contra um artigo de Humanas, como este. É como se fosse a representação teatral do tema tratado neste artigo . É como se fosse um “anime” do texto. “Temos que abrir nossas mentes, antes de abrirmos nossas bocas”. E, aprender a pensar fora da caixa…

  7. rosaura nunes costa 08.09.13 at 10:33 - Reply

    Desculpem meu lapso: eu me esqueci de parabenizar os dois autores do trabalho Erick e Claudiane e Renata, autora do texto acima. Mas, como cientistas de Humanas, vocês estão cansados de ver como o ser humano reage quando não consegue entender ou apreender alguma coisa. Tudo que foge ao comum é considerado anormal, estranho, errado, etc. Em terra de cego, quem tem um olho, não é rei. É crucificado. Parabéns, novamente.

  8. Gustavo 13.05.14 at 15:36 - Reply

    A única crítica que teço ao trabalho, como Doutorando em Matemática (embora eu tenha o hábito de ler os mais diversos livros de filosofia, hábito estranho entre meus pares), é que o trabalho consiste em aplicar teorias científicas a uma obra criada puramente da imaginação de uma pessoa. Platão riria disso. Trata-se te tentar ler o mundo real pelos olhos dos olhos (isso mesmo, duas vezes) de um único indivíduo, procurar na obra o contexto, a motivação, o viés induzido por contextos sociais que fez com que a mente da autora, no fenômeno subjetivo da crianção literária, segregasse alunos imaginários em Casas imaginárias.

    Quais os padrões a serem identificados? Não existem. Acreditar que a Sra. Rowling estabeleceu contextos sociais influenciadas pelos próprios e a partir disso derivar conhecimento é uma questão de fé. Tudo o que existe acerca disso é filosofia, que não comprova o fato. É basicamente tentar produzir conhecimento sobre magia. Sim, em Harry Potter (e mais ainda, no primeiro livro da série, no qual o trabalho se baseia), praticamente tudo o que é característico em sociedades humanas é substituído por outro contexto, onde existe o místico e os costumes são todos diferentes, estabelecidos por regras arcanas e que não são em sua totalidade reveladas para o leitor. Boa parte da diversão da obra é justamente entender e se ambientar a esse novo contexto maravilhosamente imaginado.

    Uma obra muito mais interessante, ainda tratando sobre a obra, seria analisar de onde vieram vários elementos sobrenaturais que aparecem no livro e que em geral estão associados a mitologias, ocultismo e alquimia. Este sim, seria um ótimo trabalho e de grande valor científico.

    • Taciana 05.12.14 at 15:44 - Reply

      Muitas obras provenientes da imaginaçao são analisadas. Um exemplo é o seriado Chaves, onde um trabalho recentemente ressaltou a representatividade dos personagens como países sul-americanos. Aliás, existem algumas teses e dissertações sobre o “Chaves”, também sobre desenhos animados, filmes, dentre outros.

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