Em 1978, Donald Knuth desenvolveu um sistema de compilação textual chamado TeX (lê-se téc). Mais tarde, nos anos 80, Leslie Lamport transformou o sistema TeX em uma linguagem markup chamada LaTeX (lê-se, geralmente, lêi-téc).

Basicamente, trata-se de uma “linguagem” em que você trabalha com primitivos, funções e comandos, que então são transformados (compilados) em um arquivo pdf. Ou seja, você tem um “código” que é transformado em um artigo, por exemplo, falo de artigo porque geralmente é o tipo de texto que mais produzimos no mundo acadêmico. No futuro, falarei de pôsterslidesem LaTeX.

Em Word, você escreve e visualiza o seu texto na mesma janela — de forma intuitiva. Quando você quer sublinhar uma palavra, basta usar o mouse ou um atalho no teclado. Em LaTeX, você lida com dois ambientes: o código-fonte e o “produto final”. Ou seja, conteúdo e forma são duas coisas separadas em LaTeX. Assim, todo resultado visto na forma vem de um comando específico adicionado ao conteúdo. Isso pode parecer trabalhoso, mas o resultado final é infinitamente superior a editores de texto comuns.

O Word é excelente para documentos simples. Contudo, quando você precisa escrever artigos longos, utilizar caracteres especiais, fazer referências entre figuras e texto, entre outras coisas, o sistema da Microsoft deixa a desejar. Existem diversas maneiras de aprimorar o uso do aplicativo, mas certas coisas simplesmente não ficam boas em Word. Por essa razão, o mundo científico/acadêmico utiliza LaTeX como standard.

Neste artigo, falarei do (bem) básico, para que em artigos futuros seja mais fácil acompanhar os temas específicos. Vamos lá!

1. Instale o LaTeX (clique aqui para baixar)

O pacote LaTeX é gratuito, e virá com alguns arquivos. O arquivo que nos interessa agora se chama TeXShop, o editor default do pacote. Esse editor fará as duas coisas de que precisamos: servirá para produzirmos o conteúdo e, também, para gerar o arquivo final em pdf — a forma. Você não precisa necessariamente utilizar o TeXShop: há diversas opções (pagas e gratuitas) online. Pessoalmente, acho que há opções melhores, mas esse assunto será abordado em um artigo futuro.

2. Abra o TeXShop

Você sentirá um “vazio”: não há botões de formatação, fonte, parágrafo ou qualquer outro. Em vez disso, há apenas uma tela vazia, com um ou dois botões no topo. Na versão para Mac, à esquerda, você verá o botão Typeset. Esse será o único botão de que você precisará, acredite. Você produzirá um conteúdo e, quando estiver pronto, compilará esse conteúdo (Typeset) em um arquivo pdf (“forma“). “Compilar” significa “transformar código em um arquivo pdf“.

3. Produzindo um documento em LaTeX

Salve o arquivo em branco com algum nome qualquer: não é possível compilar algo que não está salvo. O formato utilizado pelo LaTeX é *.tex.

A primeira coisa que você precisa fazer é especificar que tipo de documento deseja. Neste caso, vamos escrever um artigo. Para isso, a primeira linha do documento será:

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\documentclass{article}

Perceba que há uma barra invertida (\) antes de “documentclass”.

A barra invertida é essencial – toda função e todo comando em LaTeX é iniciado com uma barra invertida (\).

Imagine que “documentclass” é uma função, e que “article” é o seu principal argumento, e precisa estar entre chaves {} — não esqueça de sempre fechar as chaves. Em seguida, adicionamos título e data:

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\documentclass{article}
\title{Meu primeiro artigo em \LaTeX}
\date{\today}

O comando “\LaTeX” gerará o logotipo da linguagem LaTeX — por isso a barra antecede a palavra e o “l”, “t” e “x” estão em maiúscula. Para a data, utilizei um comando que insere automaticamente a data atual, mas você poderia simplesmente inserir a data que quisesse, e no formato que quisesse.

As três linhas escritas acima estarão no início do documento, no preâmbulo. O preâmbulo é o local em que também carregamos pacotes específicos, que servem para diversos fins. Pense desta forma: o documento oferece o básico, o essencial.

Contudo, você talvez queira alguns “adicionais”, como, por exemplo, inserir um cabeçalho com três componentes, ou transcrições fonéticas, ou um símbolo especial no seu texto; como a língua padrão do sistema é o inglês, utilizar português também requer um pacote.

Para cada “adicional” que você queira utilizar, é preciso carregar um pacote. É algo bastante simples, e falarei disso em outro artigo. Aqui, faremos um documento básico, e apenas falarei do pacote para língua portuguesa.

O próximo passo é iniciar de fato o documento. Até agora, dissemos que tipo de documento queremos, demos um título e uma data ao arquivo, mas ainda não começamos a escrever, certo? Para iniciar o documento, basta utilizar o comando “\begin”.

Da mesma forma, criaremos o fim do documento, com o comando “\end”. Em ambos os casos, o argumento é “document”, já que é o documento que estamos iniciando e finalizando. O primeiro componente de nosso documento é o título, que já especificamos no preâmbulo.

Para fazer com que o título esteja dentro do documento de fato, utilizaremos o comando “\maketitle”. Pronto: o seu artigo estará entre “\begin” e “\end”, logo após “\maketitle”. Veja abaixo:

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\documentclass{article}
\title{Meu primeiro artigo em \LaTeX}
\date{\today}
\begin{document}
\maketitle
 
Escreva aqui o seu artigo!
\end{document}

Neste momento, você pode salvar seu documento e compilá-lo, clicando em Typeset ou utilizando o atalho Cmd + T (Mac). Ao compilar o seu documento tex, você perceberá que alguns arquivos serão gerados. Não se preocupe: você quer apenas o pdf. Esses arquivos são gerados a cada vez que você compila um tex. Ou seja: desde que você guarde o arquivo tex, os outros podem ser excluídos sem problemas. Na figura abaixo, à esquerda, temos o código-fonte; à direita, o arquivo compilado.

tutorial-LaTex-figura-01

Documento básico em LaTeX compilado

Você deve ter percebido que a data está em inglês, a língua padrão do sistema.

Se você deseja escrever artigos em português, precisará inserir uma linha a mais no seu preâmbulo: trata-se do pacote babel, que basicamente “traduz” o seu documento para a língua que você deseja. Para carregar um pacote, utiliza-se o comando “\usepackage”.

O argumento principal desse comando será o nome do pacote que desejamos carregar — neste caso, “babel”. Contudo, aqui também incluiremos um argumento secundário para selecionar a língua que desejamos utilizar (trata-se de um argumento para “babel”). A sintaxe completa será: \usepackage

[língua]{babel}.

Perceba que o argumento entre [colchetes] está relacionado ao pacote “babel”, e não ao comando “\usepackage”. Veja abaixo o código completo — que gerará o mesmo documento visto na figura acima, exceto pela data, que agora estará em português — a alteração de língua apenas afetará comandos que gerem texto automático, é claro.

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\documentclass{article}
\usepackage[portuguese]{babel}
\title{Meu primeiro artigo em \LaTeX}
\date{\today}
\begin{document}
\maketitle
 
Escreva aqui o seu artigo!
\end{document}

Por fim, você pode fazer comentários no conteúdo que não aparecerão na forma — eis uma das vantagens de separar forma de conteúdo. Fazer comentários é algo extremamente comum em linguagens de programação: em Python e R, usa-se #; em LaTeX, usa-se %.

Quando você quiser comentar algo (uma nota mental, por exemplo), basta iniciar a linha com %.

Tudo que você escrever após % não será compilado, mas será visível no código-fonte. Isso é útil por diversas razões, já que você certamente faz diversos comentários no que escreve.

Além disso, é didaticamente interessante anotar o que você faz em cada parte do seu código. O % não precisa necessariamente iniciar uma linha: ele pode vir depois de uma frase que será compilada. No código abaixo, o que está vermelho não será compilado.

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\documentclass{article}
\usepackage[portuguese]{babel}
\title{Meu primeiro artigo em \LaTeX}
\date{\today}
\begin{document}
\maketitle
 
Escreva aqui o seu artigo! % e faça quantos comentários quiser
% comentários não são compilados e portanto não aparecem no pdf
 
\end{document}

— Fim —

ALGUMAS NOTAS GERAIS SOBRE O LaTeX:

Espaços em LaTeX: um dos problemas mais conhecidos do Word é a má administração de espaçamentos do aplicativo. Você verá que em LaTeX os espaçamentos são mais inteligentes (e automatizados). Por exemplo, se você inserir, sem querer, dois espaços entre duas palavras, apenas um espaço será compilado. Ou seja: “esta        frase” é compilada como “esta frase”. Veja uma comparação visual entre LaTeX, Word e Adobe aqui. Basicamente, em LaTeX você tem:

(1) menos hifenizações;
(2) menos espaçamentos acima da média entre palavras;
(3) um menor desvio padrão de espaçamentos entre palavras.

Ou seja: o seu texto fica mais uniforme e regular.

Pastas e organização:: é interessante que você crie seu tex em uma pasta só para ele. Assim, arquivos da compilação serão gerados nessa pasta, o que evita uma desorganização de arquivos. Além disso, ter uma pasta específica para o seu artigo é essencial para inserir figuras, por exemplo — trata-se de um hábito importante na organização de seus artigos, e será essencial com LaTeX. Não é algo necessário, mas certamente é recomendável. Em breve você verá por quê.

Você pode criar um documento tex em qualquer editor de texto simples — inclusive em Bloco de Notas. Basta salvar o arquivo como tex. Mas então por que baixar o pacote LaTeX? Porque sem ele você não compila arquivos tex. De qualquer forma, é interessante pensar que você pode criar um código-fonte em qualquer editor de textos, não? Ou seja: tudo o que fizemos até aqui pode ser feito no Bloco de Notasexceto o arquivo pdf compilado, é claro.

Note que não especifiquei fonte, tamanho, espaçamento, parágrafo, tamanho de folha etc. Essas variáveis foram automaticamente definidas pelo sistema. No próximo artigo, veremos como alterar cada um delas, para que o documento fique exatamente da forma que desejamos.

A transição entre Word e LaTeX pode ser um pouco complexa, e certamente exigirá muita paciência e dedicação. Contudo, o resultado será excelente, e seus artigos certamente ficarão mais bem estruturados. Além disso, quando falarmos de referências bibliográficas e caracteres especiais, você entenderá por que o LaTeX é tão importante — e prático.

No início, você talvez se pergunte por que é preciso tantos detalhes para produzir coisas tão simples. Com o tempo, contudo, você perceberá que certas coisas só são bem feitas assim. Depois que você passar o estágio inicial e dominar a linguagem, tudo fluirá com mais naturalidade — e você certamente não se arrependerá!