O programa Ciência sem Fronteiras (CsF) está construído sobre os pilares racionalistas que atribuem à ciência instrumental o papel de transformar a realidade. O progresso técnico é considerado caminho “natural” da humanidade e o desenvolvimento científico e tecnológico é visto como o responsável pelas melhoria na vida da população. Mas…

Lá vem História…

A partir do século XV, a centralização humana como objeto de realização do mundo (ou seja, é o homem que transforma a realidade, e não Deus) alavancou a ideia de que razão e ciência são os principais instrumentos nessa transformação.

Com o passar do tempo, o sentido da vida, outrora orientado para busca pela salvação após a morte, passou a concentrar-se no progresso técnico como desenvolvimento do homem. A vida passou a ser mais importante que a morte.

Esse conjunto de ideias conduziu o ocidente ao endeusamento da ciência e da razão, da lógica matemática e empírica. A crença na superioridade deste modelo de ciência tomava força e legitimava as conquistas europeias sobre outros territórios. O progresso tecnológico tornou-se parâmetro para classificação dos povos: quanto mais próximo daquele europeu, mais desenvolvidos eles seriam.

Contudo, o século XX viu a catástrofe das guerras, o uso da mais sofisticada ciência como máquina mortífera. A ascensão do capitalismo industrial contribuiu com a hierarquização das sociedades e emergência da dependência econômica subsidiada pela desigualdade tecnológica, dentro e fora das nações.

Eis o lado perverso da ciência. A crença de que a razão era o melhor julgamento moral e que sua expansão pelo mundo levaria ao estado de paz social e progresso humano falhou. O determinismo tecnicista provou que a ciência sem reflexão é capaz das maiores atrocidades, como a medicina experimental eugênica, a indústria farmacêutica de patentes milionárias e a extrema degradação ambiental.

O que isso tudo tem a ver com o CsF?

Este projeto de nação oferece aos estudantes brasileiros de “campos estratégicos” a possibilidade de realizarem cursos no exterior e acessarem tecnologias e pesquisas de ponta. Espera-se que, ao regressarem, eles utilizem todo seu potencial informacional para transformar a ciência e (claro!) a indústria brasileira através de melhorias tecnológicas, a grande barreira na atual divisão internacional do trabalho.

Com este processo, acredita-se que a economia nacional crescerá e as pesquisas realizadas transformarão a vida da população, reduzindo as desigualdades e oferecendo mais qualidade de vida.

Entretanto, essas expectativas são amparadas em um modelo que já se mostrou falho. Progresso tecnológico não conduz “naturalmente” a progresso social nem garante melhores condições de vida.

A resposta à nossa questão inicial

O CsF exclui as Ciências Humanas porque elas não lidam com o modelo positivista e tecnicista de ciência que, levado ao extremo, reproduz a lógica da tecnologia de consumo de massa. 

As humanidades investigam o papel desempenhado por homens e mulheres nas sociedades locais e global, entre estruturas sociais e subjetividades parciais. Interações entre pessoas e processos produtivos são temas de muitas disciplinas, embora nenhuma delas (ou quase nenhuma) lide com processos objetivados. As que mais se aproximam disso oferecem tecnologias sociais e metodologias condicionais, que ficam em segundo plano diante do predomínio da razão prática e técnica.

As Ciências Humanas não são as “salvadoras da pátria” e nem reivindicam para si esse papel. Elas se propõem a pensar processos, questionar técnicas, entender o uso da razão. O problema é que a lógica retardatária do CsF não concebe os processos propriamente humanos das sociedades históricas. Essa lógica se encanta com a possibilidade de inserir-se nos Tempos Modernos, de Chaplin, a um custo bem maior que as bolsas que seriam pagas aos estudantes das humanidades para contribuírem com esse projeto de nação.