Acho que uma resposta adequada para a pergunta acima seria, talvez!

Mas antes de discuti-la vamos começar do início…

Prazer! Tenho 31 anos, sou graduado em química, com mestrado e doutorado em físico-química. Parte do trabalho de doutorado foi realizado na Itália e com um dos maiores expoentes na minha área de pesquisa, como coorientador.

Sim! Falo italiano, além do inglês. Realizei estágio pós-doutoral no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma experiência fantástica, diga-se de passagem. Publiquei alguns trabalhos em importantes revistas internacionais, mas não sou alguém diferenciado quantitativamente, infelizmente. Estou na média… Tenho experiência de ensino desde a etapa fundamental (dei aulas de matemática para turmas do 6° ao 9° ano), passando pelo ensino técnico, até o nível superior (fui professor substituto).

Entrei na faculdade em 2004 ainda na época da febre dos vestibulares e a sua então industria de “aprovação” (em alguns locais, ainda não é diferente com o ENEM…), com 11 candidatos por vaga. Passei entre os primeiros lugares e não foi diferente nas seleções de mestrado e doutorado. Desculpa a sinceridade, mas sou uma pessoa mal acostumada com elogios…

Venho de uma família muito pobre, sem nenhuma tradição educacional e com algum histórico de violência doméstica… Desde novo sempre gostei de coisas “estranhas”. A placa eletrônica do rádio me interessava mais do que as suas músicas. Enquanto os outros garotos queriam ficar comer aquela menina bonita da escola, eu só pensava em fazer aquele maldito helicóptero movido a bateria de 9 V passar de 1 cm do chão…

Sim, perdi a virgindade com 21 anos… Percebi esse sorrisinho no canto da sua boca. Pode parar! Mas fique tranquilo, você não vai perder o “céu” por isso.

Retomando os “elogios”, eu era aquele cara que durante a graduação entendia as coisas mais difíceis e explicava para os meus amigos. O meu curso era de 4 anos, mas foram necessários somente 3,5 e acho que, caso fosse permitido na época, faria em bem menos. As maiores notas por várias vezes eram as minhas.

Ah! Isso nas horas vagas, porque na maior parte do tempo eu estava indo e voltando da faculdade a pé, que ficava a 7 km da minha casa, de manhã, de tarde, de noite, na chuva ou no sol. Não tive dinheiro pra comprar nenhum livro durante a graduação e acho que eu tenho uma dívida milionária em direitos de reprodução de obras com alguns autores…

O meu orientador no Brasil, apesar de nossas diferenças (aquele antigo caso de “amor” e “ódio”) não me poupava elogios. Um me marcou. Certa vez, após um seminário de grupo, ele disse: “Antônio, é impressionante como tudo fica fácil quando você explica! É como se o seu cérebro mastigasse essas coisas e você nos guardasse no estômago!” Ele é um cara legal! Além de ter mais de uma centena de artigos. Só pra constar, o título do seminário era “Mudanças de Base em Espaços Vetoriais para Aplicação no Estudo Quântico de Sistemas 1D”.

Escrevi o meu primeiro artigo, ainda na iniciação científica e sozinho. Entreguei ele completo apenas para a revisão do meu orientador. Foi aceito! Como professor, sempre me sai bem. Sou apaixonado por dar aulas e pelo convívio com aqueles serzinhos “ávidos por conhecimento”. Por onde passei, principalmente na UFSJ, não deixei ex-alunos, deixei fãs!

Mas Antônio. Por que você está nos contando todas essas besteiras?
Por vários motivos.

Um deles é economizar na consulta com a psicologa. Outro motivo será explicado abaixo.

Comecei a minha saga com os concursos em 2013. Foram aproximadamente 15 até aqui. Devo ter gasto seguramente em torno de R$ 20.000,00 com isso. Já fui aprovado em 4°, 3° e 2° lugares, mas nunca em primeiro. Já fui reprovado também! Inclusive na prova escrita, sem nem mesmo a chance de fazer a etapa didática. Acho inclusive isso muito humilhante…

Alguns concursos foram honestos e a culpa foi inteiramente minha. Em outros a vaga já tinha dono prévio. Os meus amigos não entendem como eu não passei até hoje. Mas os acontecimentos dessa semana me fizeram entender. Fui reprovado novamente e essa foi a última vez!

Por que isso acontece comigo? Aqui vão algumas explicações desculpas: do ponto de vista político, não aceitaria de forma alguma qualquer tipo de beneficiamento ilícito. Também não sei “puxar saco” de ninguém! Trato todas as pessoas com a dignidade e respeito que mereçam, independentemente do currículo Lattes que elas tenham (ou não tenham).

Já do ponto de vista técnico, não sou adaptado (Darwin sacana!) para o estilo de prova corrente. Escrevo devagar comparado aos outros candidatos, a minha letra não é bonita, por mais que eu me esforce hoje, acho o processo todo muito tenso, as minhas mãos tremem, fico com a musculatura do corpo toda rígida durante a semana de provas, sempre acho que, apesar de estudar muito, não sei nada sobre os tópicos do edital a serem sorteados, as expressões de “segurança” e “capacidade” dos demais candidatos me apavoram… Antes que vocês possam me recomendar, sim já fui no psicologo, psiquiatra,… É uma longa história…

Mas a pior parte de tudo isso, são as expectativas. Como dizem por aí, crie um elefante branco ou um pônei rosa, mas não crie expectativas! Desde a minha primeira bolsa de iniciação científica tenho pessoas muito queridas, que as amo muito, que dependem de mim. Elas sofrem comigo em cada reprovação…

Não quero me alongar mais e vamos ao que de fato é importante, a pergunta inicial. Fracassar é não alcançar um determinado objetivo proposto. Logo, por mais de dois anos, sim. Fui fracassado! Mas hoje não sou mais. Desisti! Não tenho mais o objetivo de ser professor em uma instituição pública, ter um grupo de pesquisa e afins… Ser professor/pesquisador na iniciativa privada? Convenhamos, não sejamos inocentes. Mas vamos deixar esse tópico para um outro texto.

Estou cansado! Vocês sabem, abrimos mão de muita coisa nessa trajetória acadêmica. Quantas noites mal dormidas, mas não na mesa de um bar e sim na escrivaninha do seu quarto. Quantas pessoas legais passaram por nós e se foram, enquanto nos preocupávamos com as normas da ABNT.

Quantos primeiros sorrisos e primeiras palavras dos nossos pequenos perdemos enquanto estávamos longe fisicamente ou mesmo próximos, vagando na dimensão abstrata em que se argumenta pessoalmente (e em português) com o referee chinês do seu mais novo artigo. Você sabe o que é ir pra casa e deixar o seu trabalho no trabalho? Eu não sei e talvez este seja um dos meus erros! Mas essa fase passou… Acho que vou assumir uma oportunidade que consegui como químico no exército (Oficial Técnico Temporário).

Vou continuar escrevendo algumas coisas, tenho trabalhos na área de educação que eu gostaria de publicar também um dia, tenho dois livros que eu gostaria de finalizar, mas agora despretensiosamente e sem grandes sacrifícios. Esses (até) sete anos de trabalho como oficial vão trazer mais qualidade de vida para a minha família e um fôlego para que possamos planejar as próximas etapas… Enfim, vou poder morar na mesma cidade da minha esposa! Chega de trabalhar em outro estado ou outro país. Temos uma pequena de quatro meses agora em forma de bochechas, olhos verdes e doçura.

Quero voltar pra casa durante a semana depois do expediente, tirar o meu calçado, lavar as mãos e correr brincar com Alicia no chão da sala. Quero assistir um filme ou um episódio daquela nossa série favorita com a minha esposa de pijama e embaixo do edredom. Quero tocar violão e cantar com ela, como já fizemos em raríssimas oportunidades.

Quero ir na casa da minha mãe no final de semana e aproveitar mais a adorável e infelizmente efêmera companhia dela. Parecem coisas simples, não é? Mas às vezes poder ser complicadas de obtermos na nossa área.

Pra finalizar, gostaria de ser um pouco cafona. Estava tocando aquela música agora a pouco

“cuida bem dela
ela gosta que reparem no cabelo dela”

Senti como se fosse o meu subconsciente cantando pra mim. Sim, hoje não sou mais um fracassado e vou cuidar delas.

O papai está voltando pra casa, princesas! De verdade!