É bom você se acostumar: ninguém vai realmente entender seu projeto de pós-graduação exceto por você mesmo, alguns colegas próximos e o seu orientador – e ainda há controvérsias quanto a este último.

Os demais pós-graduandos, mesmo aqueles colegas da disciplina de seminários para quem você fez uma dedicada apresentação de 30 minutos, no máximo saberão uma ou outra palavra-chave do seu trabalho. Os parentes… deixa pra lá, esses já acham que você só estuda mesmo. E assim a vida segue.

Mas será que precisa ser sempre assim? Afinal, falar sobre ciência para não-cientistas é um desafio e uma arte.

Geralmente a pergunta “Com o que você trabalha?” provoca uma reação em cadeia que aciona o sistema de fuga ou luta dentro de cada pós-graduando, e então as respostas variam entre um insosso “faço pesquisa” até uma efusiva explicação em jargões. Em ambos os casos, o resultado sobre quem fez a pergunta é o mesmo: o completo esquecimento.

Isso não é necessariamente “danoso”, mas o problema é que também não leva a lugar algum. Ao final da conversa, nada foi acrescentado a nenhuma das partes envolvidas – você continua pensando que ninguém te entende, e o outro continua achando que você não faz nada útil.

Por isso, se queremos quebrar esse ciclo vicioso que cria um abismo entre cientistas e não-cientistas, temos que começar a mudar por onde conseguimos fazer alguma coisa: nós mesmos.

Substituindo termos e jargões
Toda área tem suas abreviaturas, siglas e jargões característicos que facilitam muito a conversa entre colegas, mas simplesmente aniquilam qualquer tentativa de entendimento por alguém de fora – o que, convenhamos, às vezes é ótimo… só que não vem ao caso no momento.

Então, a primeira etapa na hora de explicar seu projeto de pós-graduação para alguém é avaliar a proximidade que essa pessoa tem com sua área e ir riscando termos específicos conforme a distância. Você poderá se assustar ao ver que só restaram alguns verbos e adjetivos, mas isso faz parte.

A segunda etapa consiste em preencher os espaços que estão faltando com termos amplos ou, melhor ainda, com analogias que se aproximem da área da outra pessoa.

Encurtando uma longa história
Um projeto escrito em 50 páginas e já em andamento faz alguns meses certamente vai gerar uma longa história, mas as pessoas nem sempre têm tempo para respostas demoradas – e você também não.

Por isso, o tempo ideal para responder a uma pergunta sobre o projeto é: 2 minutos. É tempo suficiente para você expor em linhas gerais a problemática do seu estudo e como pretende resolvê-la, sem cansar quem está ouvindo. E tem mais, se forçando a enxugar seus objetivos para que caibam em 2 minutos, você acaba também refletindo sobre o que seu trabalho de fato representa para você.

Mostrando uma utilidade prática, mesmo que distante
Embora muitas pessoas já saibam valorizar a Ciência pela própria Ciência, há situações em que se considera importante haver uma aplicação prática em vista, especialmente quando há dinheiro público envolvido – basta ver o item “Justificativa” dos editais de projetos.

Assim, mesmo que sua pesquisa não seja diretamente dirigida a sanar algum problema da humanidade, certamente você consegue apontar alguns aspectos em que ela poderá contribuir. Vale a pena você levantar estes aspectos quando for explicar seu projeto, principalmente para pessoas distantes da área acadêmica.

Dessa forma, aos poucos as pessoas ao seu redor vão entendendo a importância do seu trabalho e, quem sabe um dia, cada pós-graduando será devidamente reconhecido pelo valor da sua pesquisa.