Meu nome é Raiana Lira Cabral e eu faço doutorado em Ecologia e Recursos Naturais na UFC. Durante 10 meses vivi em Santiago de Compostela, Espanha para realizar o doutorado-sanduíche.

Começo hoje a publicação de uma série de entrevistas com pós-graduandos que se aventuraram ao sair do Brasil para realizar seus estudos. As entrevistas tem o intuito de ajudar na grande quantidade de dúvidas que temos quando tomamos a decisão de sair do país.

Por onde começar, algumas dicas úteis, o que esperar… são experiências que podem ser muito úteis! E por isso mesmo são perguntas recorrentes em fóruns, comunidades e tudo mais relacionado ao tema.

Eu mesma tive muita dúvida e muita ajuda quando decidi realizar o doutorado-sanduíche. Assim, convidei algumas pessoas a dividir conosco sua experiência. Mas, antes… começo eu mesma a dividir essas experiencias…

1. Por que buscar uma experiência no exterior…
Tudo começou com um desejo antigo de estudar no exterior (desde a época da graduação), num tempo em que bolsas eram fornecidas em sua maioria para quem ia fazer doutorado sanduíche e integral. Experimentar novas culturas e vivências diferentes na formação acadêmica eram minhas maiores motivações. Eu decidi que por um “sanduíche” depois de uma longa viagem pessoal no exterior quando vi que 4 anos (tempo estimado total do doutorado) era muitos anos fora, então optei por buscar um “sanduíche”.

2. Como consegui o contato com o professor…
O contato para onde eu efetivamente fui  na Espanha foi intermediado pelo meu orientador que havia ido para a mesma instituição no seu doutorado sanduíche. Mas antes de tomar a decisão de ir para o mesmo local, eu mesma explorei outras possibilidades enviando e-mails explicando meu projeto e ideias de cooperação para os autores de artigos que eu achava compatível com meu trabalho. E assim consegui boas cooperações, mas o estágio sanduíche acabou acontecendo na Espanha mesmo por se mostrar a melhor opção.

3. A principal diferença que você observou no tratamento dos pesquisadores em treinamento (estudante de doutorado) e pesquisadores (pós-doc) fora do Brasil.
Na minha experiência o que mais me chamou a atenção foi ver que os estudantes eram tratados como profissionais, o que quer dizer que muitos possuiam alguns direitos, aqui no Brasil apenas assegurados a “trabalhadores” como seguro-desemprego, férias e folgas. Além disso existe um diálogo mais direto com o supervisor que geralmente só orienta mestandos e doutorandos (e em menor numero por vez). Existe também um foco muito grande em qualidade e direcionamento de pesquisa para atender padrões de revistas de grande impacto.

4. Quando eu cheguei minha maior dificuldade foi..
Em termos de dinâmica de trabalho o que mais demorei a me acostumar foram os horários quando estava desempenhando atividades de laboratório. Começar mais tarde, fazer paradas para o café, horário de almoço com mais tempo (siesta) e hora que o departamento fechava. .. Adequar meu ritmo, os horários dos técnicos e de funcionamento do departamento, demorou mais deu certo. Achei muito interessante também a minha adaptação em dividir meu dia entre laboratorio e o trabalho de escritório por que tive que fazer muitas coisas, com pouco tempo para aproveitar bem a experiência. Isso me garantiu uma evolução no habilidade de foco e planejamento.

5. Conselhos para mim mesma antes dessa experiência (depois que eu voltei)…
– Faça um planejamento de 12 meses.
– Organize muito bem seu cronograma, mas deixe bastante folga para os imprevistos.
– Escreva mais durante o estágio, aproveite o ambiente para voltar para o Brasil com algo submetido… pode fazer bastante diferença na época da defesa.

6. Por que passar por essa experiência…
Super recomendo…. A experiência de morar fora do país amplia nossos conceitos, nos torna mais responsáveis, visionários e independentes. Vivemos experiências incríveis e voltamos com muitas histórias pra contar… acadêmicas ou não. Apendemos um idioma novo, fazemos amigos pra uma vida inteira e também contatos muito valiosos para trabalhos posteriores.

7. Algumas dicas extras..

– Se você tiver disponibilidade e vontade vá por 12 meses. Frequentemente quem está lá quer ficar mais tempo… Mas a Capes não amplia o tempo de bolsa, assim… olho no planejamento das atividades. Além do mais, você vai perceber como o tempo passa rápido.

– Contacte outras pessoas que você acha que podem te ajudar no trabalho. Dependendo do país que você vá é muito fácil ir até lá fazer uma visita, trocar ideias e ampliar a rede de contatos.

– Veja se tem algum congresso na sua área e vá. Uma grande oportunidade para Network e fazer seu trabalho ser mais conhecido.

– Tenha amigos brasileiros, mas não fique somente com eles. Estar fora do seu país pode ser muito difícil, então amigos brasileiros são uma espécie de família, são eles que não vão questionar seus abraços e vão te dizer onde encontrar os ingredientes pra fazer uma feijoada (e te ensinar a cozinhar uma). Mas fazer amigos locais é fundamental para viver bem a experiência.

– Faça cursos. Cursos de aperfeiçoamento da língua, de técnicas… as universidades geralmente tem muitos deles.