Continuamos a publicação de entrevistas com pós-graduandos que se aventuraram ao sair do Brasil para realizar seus estudos. As entrevistas tem o intuito de ajudar na grande quantidade de dúvidas que temos quando tomamos a decisão de sair do país.

Por onde começar, algumas dicas úteis, o que esperar… são experiências que podem ser muito úteis!

O convidado de hoje é também colunista do blog, provando que santo de casa também faz milagre, o Giovani Arieira.

O Giovani  faz doutorado em Agronomia na Universidade Estadual de Londrina e está realizando doutorado sanduíche por 12 meses na Universidade de Wageningen, Holanda.

1. O que te levou a fazer buscar uma experiência no exterior?
A principal razão foi a necessidade de desenvolver modelos estatísticos aplicados ao meu projeto de tese. Além disso, era uma oportunidade única de crescimento profissional e pessoal, principalmente no aperfeiçoamento de outra língua.

2. Como você conseguiu o contato com o professor-pesquisador?
Após decidir com minhas orientadoras no Brasil a melhor instituição para desenvolver as atividades pretendidas, foi feito o primeiro contato com o chefe do departamento da instituição em questão. O mesmo indicou um provável orientador e, à partir desse momento, aconteceu o meu contato direto com ele. Nessa fase acertamos o período, o projeto, o cronograma e todas as atividades a serem desenvolvidas, através de vários e-mails e conversas via skype.

3. Qual a principal diferença que você observou nos pesquisadores em treinamento (estudante de doutorado) e pesquisadores (pós doc) fora do Brasil?
A principal diferença que senti é a forma como o estudante de doutorado é reconhecido e tratado: como profissional. Os alunos são “empregados” da instituição e têm uma liberdade muito maior para decidir os rumos do seu projeto. Aqui não existe a figura do estagiário. Não que eu não ache o estagiário importante, mas o que acontece é que o estudante de doutorado precisa planejar muito bem suas atividades, para ter certeza que irá cumpri-las. Por isso, todo o trabalo é muito bem pensado anteriormente e com total liberdade. Como consequência lógica, são bem mais questionados pelas alternativas escolhidas e mais cobrados pelos resultados.

4. Em termos de dinâmica de trabalho, qual a diferença que foi mais perceptível ao chegar na sua estada fora do país?
O estudante é realmente o maior responsável pelas atividades relacionadas ao seu projeto. No Brasil, teoricamente, as coisas funcionam da mesma forma, mas na Holanda o estudante tem mais autonomia para decidir o que fazer e como fazer. Além disso, geralmente reserva-se um tempo muito maior para o planejamento das atividades, principalmente no que diz respeito à elabração das hipóteses do trabalho. Isso é excelente, pois sabendo exatamente o que se deseja estudar, não ocorre aquela já conhecida coleta de dados em excesso, que muitas vezes acabam não sendo incluídos na apresentação dos resultados. Por isso mesmo, a análise dos dados e publicação ocorrem de forma mais rápida.

5. Se você pudesse dar pelo menos três conselhos a você mesmo antes da sua experiência, o que você diria?
Primeiramente, não se prenda apenas ao seu trabalho, mas aproveite para viajar e conhecer outros lugares. É comum deixar esse tipo de coisa para depois e quando você se der conta, já estará na hora de voltar e ainda haverão muitas coisas que você gostaria de ter feito e lugares que gostaria de ter conhecido. Em segundo lugar, procure se integrar o máximo possível à cultura do país em que você está. Apenas o local de trabalho, os meios de comunicação, uma ida ao mercado, etc. já cumprem em parte esse papel, mas buscar amigos nativos do país torna a experiência de realmente conhecer a cultura muito mais ampla. No caso da Holanda, acho muito positivo aprender ao menos um pouco de holandês, mesmo que você não use muito a língua, já que aqui todos falam inglês fluentemente. De qualquer forma, é uma maneira de interagir mais e realmente viver a cultura do local. Por último, evite andar apenas com brasileiros. É claro que será a opção mais fácil, mas quando você tem amigos de outros países, sua visão de mundo como um todo muda bastante. Além do que é a melhor forma de realmente melhorar a fluência no idioma. Esse é um “erro” que muitos cometem, muito em função da comodidade. Você pode ter amigos brasileiros, mas o ideal que você não tenha apenas amigos brasileiros.

6. Você recomenda a experiência? Por quê?!
Totalmente! Após uma experiência dessas você sente que realmente se libertou do cordão umbilical que te prendia. E, não necessariamente, aquele que te prendia à família ou ao orientador, mas aquele que te prendia à comodidade e alguns medos e receios. No final, você sabe que pode ir para qualquer lugar e conseguirá se virar muito bem. Além disso, creio que perde-se muito o famoso “complexo de vira-latas”. Eu percebi que, independente da disponibilidade de recursos e tecnologia, o que realmente garante a qualidade de uma pesquisa são os pesquisadores. Então, me sinto totalmente seguro para fazer Ciência onde quer que seja, mesmo que algumas adaptações sejam necessárias e que os impecílios sejam maiores em alguns casos.