Em algum momento na pós-graduação, seja com relação ao projeto ou às nossas próprias convicções, estamos errados. Pensamos que o resultado seria um e na verdade foi outro, apoiamos piamente uma hipótese e ela se mostrou equivocada, tínhamos certeza absoluta… e nos enganamos.

Sabemos que a ciência é assim e que é graças às tentativas e erros que o conhecimento progride, mas nossa visão positiva destes erros geralmente depende de eles estarem no passado. É muito bonito dizer e ouvir que tivemos um aprendizado após termos errado, mas e quando estamos errados no presente?

Parece que quanto mais estudamos e nos aprofundamos num determinado assunto (que tal um projeto?), menos nos sentimos no direito de errar. E esse sentimento só se agrava com o passar do tempo, conforme permanecemos no mesmo ambiente de trabalho, na mesma linha de pesquisa, e rodeados por pessoas que já nos têm como “referência” naquela área.

Acontece que, especialmente neste momento quando achamos que não podemos mais errar, estamos muito enganados. Todos nós cometemos erros de vez em quando, e é importante estarmos cientes disso e sabermos que admiti-los não nos desqualifica como profissionais.

Pelo contrário, nos torna mais propensos para aprender e faz nos sentirmos mais livres, já que fica desnecessário sustentar uma imagem infalível. Uma imagem que sem querer começamos a moldar cedo na vida, quando somos ensinados que o sucesso está diretamente vinculado a não errar – basta lembrar as formas tradicionais de avaliação nos colégios e faculdades.

Aliás, a própria forma de ensino em que todo conhecimento é passado como correto e estático tem sua parcela de culpa. Dizia um professor de Harvard nas suas aulas de biologia que “metade do que vou lhes ensinar hoje está errado, mas infelizmente eu não sei dizer qual metade” – e é mais ou menos assim que funciona com nossos projetos também, sabemos que alguma parte precisará ser mudada durante a pós, só não sabemos qual parte.

Portanto, se racionalmente admitimos que às vezes podemos estar enganados e que é essencial estarmos dispostos a aceitar isso para aprender com esses enganos… por que ainda assim é tão desagradável se sentir errado? E mais, se sentir errado perante outras pessoas? Segundo a “errologista” Kathryn Schulz1, porque para nós, cometer erros significa que existe algo de errado conosco. Tendemos a ver nossas falhas não como uma etapa essencial para nosso aprendizado, importante para evitarmos erros futuros, mas sim como representativas de quem nós somos.

Por outro lado, o grande problema reside exatamente na sensação oposta à de estar errado: a sensação de estar certo. A sensação de certeza interior pode ser altamente perigosa, pois passamos a acreditar que nossas próprias convicções refletem perfeitamente a realidade do mundo. E esse apego nos impede de prevenir equívocos quando mais precisamos.

A verdade é que nenhum de nós sabe bem o que acontece lá fora, seja na física, na história, na biologia, na química, na psicologia, nas complexas interações entre todas essas e outras áreas. Mas somos totalmente obcecados em compreender.

Por isso, estudamos, experimentamos, testamos… e quando estamos errados? Humildemente aceitamos, aprendemos com isso e seguimos em frente.

1Este texto foi inspirado pela palestra proferida por Kathryn Schulz no TED 2011. A duração é de aproximadamente 18 minutos.