“Doutor é quem tem doutorado” é uma das frases que mais tem circulado na internet nos últimos tempos.

E várias discussões surgem daí.

Sim, tecnicamente você só é doutor quando defende uma tese de doutorado.

No entanto, para a maioria das pessoas que não são do meio acadêmico, doutor é o médico, o advogado.

Você que defendeu uma tese vai ser conhecido na vizinhança ou pela sua família, no máximo como “professor de faculdade”.

Porque a maioria das pessoas não entende as titulações acadêmicas e nem estão interessadas em entender o que a gente faz da vida.

O costume de chamar advogado e médico de “doutor”, mesmo sem doutorado, vem do Brasil colônia.

Na época a maioria dos jovens ricos que estudavam fora cursava medicina ou direito.

Vem daí também a utilização de doutor para qualquer pessoa que tenha alta condição fincanceira.

Obviamente, o tal decreto de Dom Pedro 1º que daria o título de doutor aquele que concluísse os cursos de ciências jurídicas e sociais no Brasil não é válido.

Mas porque então médicos e advogados e outras pessoas que não são doutoras continuam sendo chamados de doutor?

Por uma questão cultural.

O decreto caiu, mas a ciência ainda continua muito distante do entendimento da maioria da população.

Quantas pessoas da sua família entendem que você é um cientista em formação?

Que você não “só estuda”, você faz ciência?

Nenhuma, não é?

Então porque estamos discutindo quem deve ou não ser chamado de doutor?

Alguns vão dizer que é porque merecemos reconhecimento pelo nosso esforço, outro dirão que não é justo quem não defendeu uma tese ser chamado de doutor.

Mas será que não é só vaidade acadêmica?

Aquilo que tanto rivaliza pós graduandos e nos faz pensar que somos melhores ou merecemos mais que outros?

Quem realmente é doutor, raramente faz questão de ser tratado como tal.

Quantos professores doutores, aquelas nossas referências bibliográficas foda, você já viu brigando pra ser chamado de doutor?

Ah, mas graduados deveriam saber que não podem sair por aí se auto intitulando doutores.

Pois é, deveriam! Mas será que sabem mesmo?

Será que também não são tomados pela vaidade do “status” de tal título?

Será que ser graduado, mestre ou doutor realmente te tira do senso comum?

Vimos muitas vezes que, infelizmente, não.

Mas enquanto nos preocupamos com quem merece ou não ser chamado de doutor os investimentos para ciência vão diminuindo, em um corte atrás do outro.

Os esforços dos pesquisadores são cada vez menos sendo valorizados.

E o reconhecimento inexistindo.

O título de doutor não te dá garantias de ser melhor ou ter de mais conhecimento do que alguém que não tenha o título.

De novo: na teoria deveria sim, ser alguém que atingiu um alto grau de conhecimento.

Mas na prática, na nossa dura realidade, em tempos de sucateamento da educação, sabemos que não é assim.

E é sempre bom lembrar: Para que você se torna doutor?

Para se tonar um pesquisador.

Você investe mais quatro anos da sua vida para se capacitar enquanto cientista.

Mais um cientista, em meio a tantos.

Um novo cientista em uma área que já tem outros. Melhores e piores que você.

O título não define a capacidade profissional.

Doutor é quem tem doutorado sim, mas não deve ser essa a pauta de discussão.

Precisamos de reconhecimento, tanto do que fazemos apesar das poucas condições e quanto da profissão de pesquisador/cientista.

Precisamos é de financiamento, de investimento na educação.

Precisamos é de melhores condições de trabalhos.

Até quando comprometeremos nossa saúde para fazer ciência?

Precisamos de mais união; estamos todos no mesmo barco, não somos rivais.

O título a gente defende, apesar de todas as dificuldades.