OK, vamos começar com um esclarecimento importante: não, leitor pós-graduando, você não está diante de um raríssimo exemplar da espécie que não procrastina. Eu procrastino. Muito. Sempre procrastinei. Assim como a maioria das pessoas, composta por gente que adia tarefas eventualmente ou muito frequentemente, tarefas de grande ou pequena importância.

O que me leva a escrever este tutorial não é uma infinita cara de pau, mas uma consequência bastante natural da minha formação. Sou psicólogo e, portanto, me ocupo do comportamento humano. Diante da manifestação em mim mesmo de um tipo de comportamento tão desastroso e desafiador, nada mais natural do que me empenhar em entender por que, raios, eu sempre deixo para depois o que poderia fazer agora.

A procrastinação não é uma doença, nem um distúrbio neurológico, nem preguiça, safadeza ou falta de caráter.

A procrastinação é o resultado de uma relação simples, porém implacável, entre as características da tarefa em mãos e as suas habilidades disponíveis para executá-la, somada à disponibilidade de outras coisas (lúdicas ou laborais) com as quais você pode se engajar em lugar de fazer o que havia se proposto a fazer.

Essa definição já deixa claro um aspecto fundamental da procrastinação, que se aplica igualmente a qualquer comportamento: consciência – ou conhecimento – não é suficiente para alterar nosso comportamento.

A nossa cultura fez um belo trabalho não-intencional de obscurecimento acerca do comportamento humano, de modo que tendemos a sempre buscar dentro de nós mesmos as respostas para a mudança do pensamento, do comportamento e dos sentimentos. Ocorre que a mudança comportamental – bem como a de sentimentos e pensamentos, pois os três fenômenos obedecem às mesmas leis – não é uma questão de força de vontade, mas de suporte ambiental. A influência do ambiente, tanto o físico quanto o social*, sobre o nosso comportamento é ampla e irrestrita.

Vale repetir, com outras palavras: a cultura ocidental tem nos ensinado há muito tempo a olhar para dentro, a buscar algo na mente, quando a possibilidade real de autocontrole está na atenção ao mundo ao redor e, mais importante, na manipulação desse mundo.

Feitas todas essas considerações, segue uma conclusão triste: este tutorial não pode ensinar ninguém “como não procrastinar a entrega do artigo”. Se o mundo ao seu redor é uma variável chave na explicação da sua procrastinação, e se eu não tenho acesso a esse mundo, logo não posso afirmar coisa alguma sobre a sua procrastinação – muito menos dizer a você o que fazer para eliminá-la.

O seu comportamento é uma relação entre o estado presente do seu organismo (um magnífico fruto da evolução da espécie e da sua história de vida, posso ver daqui) e o ambiente físico e social. As chances de que existam dois organismos idênticos sujeitos a um ambiente idêntico são zero. (Considere, minimamente, a impossibilidade de dois corpos ocuparem o mesmo lugar ao mesmo tempo e de terem acesso simultâneo aos comportamentos dos demais organismos ao redor. Os desdobramentos dessas duas condições simples são incalculáveis.)

Por isso tudo, resta afirmar, sem medo de errar e do lugar-comum, que cada pessoa é única. Em outras palavras, seu comportamento é idiossincrático.

Diante de tais inescapáveis limitações, o que este tutorial oferecerá é um pouco de ciência que sirva a uma tecnologia pessoal. Ele se baseia em leis e processos comportamentais importantes para se compreender a procrastinação e permitirá a você interpretar sua própria situação. Mas cuidado, leitor! Você estará fazendo, tecnicamente, uma autoanálise. Freud não aprovaria.

E a mim cabe lembrar: conhecimento não é suficiente para mudar o comportamento. Pense no suporte ambiental social (o verdadeiro motor da vida psicológica) como um contínuo que vai desde o mais básico, que é você conversando consigo mesmo (a linguagem, que lhe permite pensar, não nasceu com você), até o mais sofisticado, que é usar os serviços de um psicólogo clínico, capaz de analisar junto com você seu comportamento e oferecer a ajuda necessária para alterá-lo na direção que você deseja e na medida do possível.

Há limitações, de qualquer forma. Não é possível formatar esse HD que é seu corpo e mesmo um psicólogo não tem acesso total à sua história de vida para analisá-la por completo. Também não é ele capaz de fazer parte continuamente do seu ambiente para ajudá-lo a modificá-lo. Não se trata de matemática pura. Estamos no campo da tecnologia e alguns foguetes podem explodir antes que você seja capaz de conquistar o espaço sideral.

Como não procrastinar

Alguns tipos possíveis de suporte social. Quanto mais deles, melhor.

Feita essa longa e desalentadora introdução, abanque-se no divã e abra seu editor de textos favorito. Nós vamos usar alguns princípios básicos de análise do comportamento para uma autoanálise. Conhecimento não põe mesa, mas abre o apetite. Ele não altera seu comportamento, mas é o que lhe permitirá fazê-lo. Por isso, este tutorial trará um pouco daquilo que precisa ser conhecido e pode ser mudado.

Faça os ajustes necessários no seu mundo de forma que ele faça de você quem você deseja ser! … Ou, ao menos, alguém que não procrastina tanto.

CONHEÇA SUAS TAREFAS

Como não procrastinar

É impossível ter autonomia sobre a própria vida se você sequer sabe do que ela é feita. Prazos vão sempre parecer mais folgados do que realmente são se você estiver alheio à complexidade das tarefas. Transfira seus projetos para um suporte concreto.

Não apenas o projeto de pesquisa propriamente dito, “redigido em até 20 páginas, contando as referências”, mas cada etapa, cada tarefa e cada mínima ação que as compõem. Escreva isso, monte um esquema, mas tire da cabeça e dê a tudo isso a concretude do papel – ou da tela do computador, tanto faz. Só assim é possível ter os elementos postos em conjunto diante de você, o que permite que eles exerçam em você a pressão mortificante e o controle que devem exercer.

Feito isso, agora, sim, você pode ter uma real dimensão do seu trabalho. Estime o tempo que cada ação requererá, quais ações dependem da execução prévia de outras ações, quais dependem da participação de outras pessoas – e de suas completamente desconhecidas agendas.

Por último, mas não menos importante, reserve tempo para imprevistos. E esqueça esse tempo! Não o considere tempo disponível. Para ajudar, planeje suas entregas fora desse tempo e informe aos envolvidos.

Fazer tudo isso lhe trará uma percepção mais realista sobre seu trabalho. Se você é um pós-graduando, sua experiência com a pesquisa científica é insuficiente, não importa se fez cinco iniciações científicas na graduação. A experiência de seu orientador não é sua experiência. Se seu trabalho não for destrinchado em suas unidades mínimas de ação, não há conselho de ancião que resolva.

CONHEÇA SUAS HABILIDADES

Como não procrastinar

A qualidade e até mesmo a possibilidade da realização das ações na execução das tarefas de pesquisa dependem diretamente de suas habilidades. As ações são muitas e suas habilidades podem variar enormemente. Estamos falando de comportamentos específicos do repertório do pesquisador, mas não só.

O quão bem você é capaz de organizar seus compromissos em uma agenda e segui-la da forma correta? Você sabe se virar tranquilamente e sozinho no laboratório? Conhece um pouco das inúmeras possibilidades de a ida ao campo dar errado e como lidar com elas? Se sente confortável com os contatos que terá de fazer? Como você ficha os textos de que precisará e como organiza esses dados para fácil recuperação? Você sabe escrever um texto científico? Como sua escrita evolui, da primeira estrutura de tópicos e dos primeiros rascunhos ao texto final? Se você está no mestrado, já vivenciou a saga épica da redação científica alguma vez, com todos os detalhes e percalços, enigmas de esfinge e monstros marinhos?

Conhecer suas habilidades permite antecipar suas dificuldades e, assim, não ser pego de surpresa pelos desafios. Quando essas surpresas acontecem, a procrastinação é uma manifestação muito comum.

CONHEÇA SEUS VÍCIOS

Como não procrastinar

Os mais óbvios serão problemas menores. Cigarros e bebida não necessariamente são entraves para sua produção – apesar de serem problemas sérios para a vida de modo geral. Mas o Facebook, seus games e suas séries preferidas podem afetar muito sua produção.

O que faz dessas coisas aparentemente inofensivas problemas tão significativos é o fato de serem prazeres fáceis no sentido mais literal: estão ao alcance de poucos cliques do mouse ou de atalhos do teclado (que você deveria estar usando para ter um futuro brilhante de glórias intelectuais).

Faça um levantamento de tudo o que o distrai. Atente-se especialmente para aquelas atividades nas quais você se engaja sempre após encontrar um pequeno desafio. Geralmente, você interpreta como uma leve preguiça, uma vontade de descansar um pouco ou alguma curiosidade internética que não pode esperar e não vai fazer mal. Calce suas luvas de látex: você está diante dos espécimes mais nocivos e disseminados da procrastinação.

Conhecidos os vícios, o próximo passo é lutar contra eles da única forma que funciona: altere seu ambiente. Desligue sua internet em horários que você designou para trabalhar no computador.

Empacote o vídeo game nas segundas-feiras. Mantenha suas séries em um HD externo, não no seu computador, ou empacote o aparelho de DVD, se for o caso. Autocontrole não é ser capaz de resistir à tentação posta diante de si.

Resistir dessa forma é um desafio carregado de um tipo de moralidade que até hoje não fez do mundo um lugar melhor. Autocontrole é ser capaz de se conhecer e alterar seu universo pessoal para que ele conspire a seu favor.

ACIONE SEU ENTORNO SOCIAL

Como não procrastinar

Até aqui consideramos mais diretamente seu comportamento e seu ambiente físico. Pode não ser óbvio, mas também consideramos profundamente seu ambiente social, dado que suas tarefas, habilidades e prazeres só existem na forma atual porque você nasceu um indivíduo em uma cultura já bastante complexa, uma condição da qual seria impossível escapar.

Mas, neste tópico, vamos pensar em algumas formas de acessar diretamente outras pessoas na tentativa de procrastinar menos.

Seus amigos e colegas pós-graduandos podem ser bons companheiros nessa busca por melhores hábitos. Grupos de estudos com uma frequência ao menos semanal e com debatedores designados em forma de rodízio podem funcionar muito bem para manter todos com a bibliografia em dia e fichada.

Além de efetivamente realizar tarefas relacionadas à leitura, há um ganho em conhecimento, pois esse grupos proporcionam discussões ricas, sem aquele certo retraimento que pode acometer alguns nas discussões rotineiras com o orientador.

Outra forma eficaz de aproveitar os colegas é organizarem-se para trabalharem juntos rotineiramente, em horários e local fixos. Funciona mesmo que cada um esteja cuidando de sua pesquisa individual. O valor dessa dica está no compromisso que se cria em assumir horários e, no médio prazo, em adquirir um hábito, uma rotina saudável de trabalho.

Seu orientador, por óbvio, tem participação importante. Pessoas diferentes encaram a pós-graduação sob primas diferentes. Concordo com quem diz que a pós-graduação é um espaço de aprendizado, do qual se participa quando se é capaz de demonstrar certas habilidades, e que faz parte da necessária máquina de produzir ciência – ou seja, sua pesquisa é importante para os outros, não só para você. Ao orientador cabe a difícil tarefa de ensinar um pesquisador iniciante a produzir ciência de qualidade.

Em caso de um autocontrole insuficiente por parte do orientando, a procrastinação pode aparecer em dois extremos. Em um extremo, o orientador é sempre atencioso para conversar e deixa você muito livre quanto ao tempo mas, quando o prazo final chega, você não se controlou sozinho como deveria em relação às tarefas.

No outro extremo, o orientador é linha dura, um ferrenho cobrador de cumprimento de prazos, mas não orienta de perto as ações de pesquisa e, por falta das habilidades necessárias, você procrastina mesmo se estiver sempre atento aos prazos.

Em ambos os casos, cabe a você identificar suas necessidades e solicitar ao orientador que lhe ajude. Essa sugestão pode soar estranho para alguns, cujos orientadores são figuras distantes, mas é o trabalho dele, certo?

Por fim, uma ajuda profissional parece uma solução dramática, até mesmo cara. Mas os resultados certamente serão mais robustos e, possivelmente, mais permanentes. Ele lhe ajudará com todas as dicas acima e outras mais, na análise do seu comportamento, pensamentos, colapso nervoso iminente e sentimentos que devem ser considerados. Não se trata de uma panaceia, mas pode ser muito efetivo.

Dado que a pós-graduação pode ser mentalmente adoecedora em proporções assustadoras, um apoio profissional para que ela entre nos eixos e seja mais leve pode evitar algo pior.

Espero que o tutorial lhe seja útil, apesar de não definitivo ou feito em medida para você. Não poderia ser, de qualquer forma. E espero que sua pós-graduação seja mais tranquila com essas dicas. E que volte ao seu trabalho agora que o texto que escolheu ler ao procrastinar acabou. Ou logo após um cafezinho. Ou amanhã.

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*A pertinência da dicotomia entre mundo físico e social é uma discussão que não cabe aqui. Dado que a linguagem é uma característica marcante do que se entende por ambiente social e está ausente, para fins práticos, do que se entende por mundo não-humano, não-social, digamos, apenas, que a dicotomia é útil na explicação dos fenômenos psicológicos.

Texto escrito por Junio Rezende, psicólogo, especialista em Análise do Comportamento Aplicada e mestrando em Psicologia na Universidade Federal de Minas Gerais. Procrastina o mestrado atualizando o projeto de doutorado. Não ousa ter um blog a essa altura da pós-graduação, mas pode ser encontrado no Facebook (/junio.rezende.3).